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quinta-feira, 8 de maio de 2014

Fazer eventos médicos sem a indústria farmacêutica é a única alternativa?

Esta pergunta me é feita por muitos colegas. Já escrevi previamente acerca de lições que eventos "independentes", por mim organizados, trouxeram-me. Leia um exemplo aqui. Não receber dinheiro da indústria não impede a presença na grade de potenciais "representantes", bem como pude aprender sobre a importância de outros conflitos que também merecem atenção.

De dentro do movimento "anti-indústria" (rótulo que não bem caracteriza minha posição pessoal, mas que acaba sintetizando o pensamento predominante), há também quem me pergunte. Entretanto, não costumam dar tempo para que eu responda. Dão eles mesmo a resposta, gritando que nunca será perfeito em parceria com eles.

Ocorre que não acredito é em mundo perfeito!

Frente a mais dúvidas do que certezas, além do que já escrevi para o CREMESP tempos atrás, em parceria com Sami El Jundi, tenho uma forte convicção:

Se eventos médicos sem a indústria farmacêutica (e de tecnologias) podem não ser a única opção, e sinceramente acho que não são, a maneira de viabilizar diferente, de forma a ser o sistema minimamente confiável, é através de muita transparência. Com as organizações médicas promotoras surpreendendo, e muito. A maneira como muitas funcionam hoje, representando até mesmo mini-ditaduras, sem eleições, sem assembléias (ao menos além de existirem em atas e documentos), sem real alternância de poder, torna, lamentavelmente, o radicalismo a única possibilidade. Aumentando chances de efeitos indesejáveis da boa intenção. Desconheço radicalismo ótimo ou justo.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Outros conflitos, além de com indústria de medicamentos

No início desta semana recebi convite para conferência em São Paulo. Convite nominal. Assinado por "Conference Manager, Latin America". O site do instituto é muito bacana. Estava no convite:

"Creio que sua expertise e experiência serão de grande relevância para os participantes do evento!"

"Será uma honra contar com a sua valiosa contribuição"

Isto abaixo achei estranho, pois normalmente, como organizadores de evento, selecionamos não somente os palestrantes, mas também os temas:

"Encaminho arquivo com sugestões de palestras que pretendemos abordar, sinta-se à vontade para optar por algum tema sugerido, assim como indicar outro assunto que não consta na grade de palestras e que gostaria de apresentar nesta conferência. Caso não possa comparecer ou não seja a pessoa da empresa responsável por este assunto, agradeço indicação do profissional para verificar interesse de palestrar".

Acenei com o interesse em participar. Realmente fiquei feliz com a oportunidade. Identifiquei-me com o tema central do evento.

Eis que no segundo e-mail a tal Conference Manager responde deixando claro que não sabia direito quem eu era. "Qual empresa você representa mesmo?", entre outras perguntas que escancaravam a falta de informações básicas. Respondi que era médico do Hospital de Clínicas de Porto Alegre.

"Muito obrigada pelo seu retorno. Mas o senhor trabalha em qual empresa? Peço desculpas, eu preciso saber antes para confirmar. Há algumas questões internas com a área de patrocínio"

"Eu preciso mencionar o nome, cargo e empresa a qual o palestrante pertence. A empresa é Medicina Hospitalar? Qual é a área de atuação?"

"Por favor, agradeço se puder indicar-me outros profissionais para avaliarem interesse de participarem como palestrantes dos seguintes setores:

OPERADORAS DE PLANOS DE SAÚDE
SEGUROS SAÚDE
HOSPITAIS
LABORATÓRIOS

Quarta-feira, é o meu prazo para entregar um esboço deste projeto a coordenação".

Aí lembrei que em 2011 havia recebido material semelhante, e o localizei. A mesma pessoa havia enviado. Na época, fui convidado para palestrar em evento cujo tema central nada tinha a ver com minhas áreas de atuação ou interesse. Recusei o convite. Não dei muita bola.

Não recebi mais retorno deste convite de agora, tendo insistido que minha empresa era o Hospital de Clínicas de Porto Alegre. Talvez por não ser hospital privado.

Estamos sendo incapazes de evoluir na questão dos conflitos de interesse com a indústria de medicamentos, e crescem outros conflitos corporativos. O que fazer? Está é nossa questão primordial - tratamento, não mais diagnóstico.

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Médicos e indústria farmacêutica: uma relação complexa e delicada


Divulgo texto que publiquei com Sami El Jundi em Revista Ser Médico:

http://alertaindependente.blogspot.com.br/2012/05/texto-dos-editores-publicado-na-revista.html

Agradecemos divulgação e discussão. Aproveitamos para lançar oficialmente nosso novo canal de discussão sobre o tema: Blog Evidence BIASED Medicine.

sábado, 3 de março de 2012

Fluxograma com princípios gerais para a abordagem de conflitos de interesse em eventos de associações médicas

Estava organizando meus materiais e encontrei "Fluxograma com princípios gerais para a abordagem de conflitos de interesse em eventos de associações médicas" (adaptação tabajara de referência em inglês). Imbutidos aqui há conceitos importantes, como: conflito de interesse por si só não é um problema, mas pode vir a ser um problema. Relações de um modo geral determinam conflitos...


quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Relacionamento entre médicos, estudantes de medicina e farmacêuticas II

Durante o I Simpósio Brasileiro de Pediatra Hospitalar, eu, Sami El Jundi e o então estudante de medicina, Douglas Freitas, futuro residente de Clínica Médica, aplicamos questionário sobre Relacionamento entre médicos, estudantes de medicina e farmacêuticas.

Havia sido elaborado e aplicado por nós, Paulo Ricardo Cardoso, João Luiz Marin Casagrande e Ricardo Parolin Schnekenberg no PASHA2010. Saiba mais.

Desta vez, apenas 25 pessoas entregaram os questionários integralmente preenchidos. 88% dos respondedores era estudante de Medicina. Os demais se identificaram como médicos ou gestores. Interessante perceber que este segundo grupo entregou bem mais o questionário sobre conhecimento do que vem a ser um médico hospitalista. Às vezes, parece que fugimos deste debate sobre conflitos de interesse... talvez Freud explique...

Quando questionados se é apropriado receber presentes da indústria farmacêutica de baixo valor monetário (canetas, mousepads, etc), a maioria (64%) respondeu que sim (concordo fortemente ou concordo).

Quando questionados se é apropriado receber presentes da indústria farmacêutica de maior valor monetário (smartphones, tablets, inscrições em congressos, viagens, etc), a maioria (68%) respondeu que não (discordo fortemente ou discordo).

Em estudo clássico publicado em J Gen Intern Med 2005;20:777-86, com estudantes de medicina, 85% consideraram inadequado que políticos recebam presentes de corporações, mas apenas 46% que os médicos não devem receber presentes da indústria farmacêutica.

Quando questionados se os materiais educativo-promocionais distribuídos pela indústria farmacêutica são usualmente fontes confiáveis para obter informação a respeito de novos medicamentos, 84% responderam que não.

Apesar de não confiarem na informação dos propagandistas, quando questionados se o seu hospital ou faculdade deve impedir o contato com representantes de laboratórios, a maioria (75%) acredita que médicos em geral não devem ser privados disto. O grupo se dividiu em relação à exposição de médicos em formação e estudantes de Medicina aos profissionais da indústria farmacêutica.

A maioria não acha inadequado que o médico receba presentes de baixo valor monetário, e também não considera (84%) que estes presentes influenciem a prescrição médica.

Percentual bem significativo respondeu que não é inadequado receber presentes de maior valor monetário, mas a imensa maioria (88%) aceita que influenciam as prescrições médicas.

Quando questionamos os participantes se eventos médicos com a participação das farmacêuticas tendem a ser enviesados, 88% responderam que sim (concordo fortemente ou concordo).

O fato do I Simpósio Brasileiro de Pediatria Hospitalar não ter estabelecido por opção nenhuma forma de relação com a indústria farmacêutica teve alguma influência na sua decisão de participar? Não houve respostas com 'influenciou negativamente'. Apenas 20% responderam que influenciou positivamente, embora muitos dos outros aceitem eventos em parceria com a indústria como "potencialmente enviesados".

Questionamos se “presentes da indústria farmacêutica ou vínculo comercial poderiam te influenciar?”, permitindo ‘sim’ e ‘não’ como respostas e se “presentes da indústria farmacêutica ou vínculo comercial poderiam influenciar teus colegas?”, permitindo ‘sim’ ou ‘como exceção absoluta a regra’ como respostas. 76% dos participantes negaram a possibilidade de serem, eles próprios, influenciados, mas consideraram que a maioria absoluta de seus colegas poderia ser (92%).

É bastante interessante a análise de alguns comentários que foram feitos espontaneamente pelos participantes.

 - “Podemos receber presentes, desde que não interfiram em nossas condutas”.

- “Não se pode impedir ou proibir (em relação ao contato com representantes de laboratórios), tem que haver maturidade médica para não se deixar influenciar”. Quando questionado se presentes da indústria ou vínculo comercial poderiam influenciá-lo, respondeu que não. Quando questionando se poderiam influenciar seus colegas, respondeu que sim, com o seguinte comentário: “falta maturidade”.

- Influência? “No meu caso, não. Nos demais, é possível que influencie”.

Esta situação do "eu não, mas não ponho a mão no fogo por terceiros" é bastante freqüente:


Colei acima dois slides de minhas aulas sobre o assunto, apenas para lustrar o quão comum é este achado. Talvez explique o comportamento de algumas pessoas que não aceitam entrar neste debate com o argumento: "Isto é tão básico. Basta a pessoa ser ética como eu e tudo funcionaria perfeito".

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Projeto Diretrizes - Conselho Federal de Medicina e Associação Médica Brasileira & Conflitos de interesse

Há várias diretrizes onde não há sequer declaração de conflitos de interesse.

Em outras várias, coisas do tipo:

Albuquerque MAC, Auler Júnior JOC, Bagatini A, Sales PCA, Santos EJA, Simoni RF, Vianna PTG são membros do Advisory Board da AstraZeneca do Brasil Ltda. E participaram do Curso Projeto Diretrizes da AMB a convite da AstraZeneca.

Praticamente todas as diretriz de Anestesiologia são feitas por convidados da AstraZenica.

Laurindo IMM: Recebeu honorários por apresentar palestras e conferências em simpósios patrocinados pelas empresas Abbott, Aventis, Pfizer, Schering-Plough e Wyeth nos últimos 5 anos. Participa como membro do board nacional do produto Humira-Abbott.

Ximenes AC: Recebeu honorários por apresentar palestras e conferências. É membro do Advisory Board sobre inibidores COX2 da Merck Sharp & Dohme e membro do Advisory Board sobre terapia biológica da Abbott desde 2001.

Pinheiro GRC: Recebeu honorários pela participação em palestras sobre artrite reumatóide e sobre o uso de agentes biológicos dos laboratórios Abbott, Schering-Plough e Wyeth.

Xavier RM: Foi remunerado por conferências em simpósios pela indústria farmacêutica (Merck Sharp & Dohme, Abbott e Schering-Plough).

Ciconelli RM: Ministrou palestras recebendo honorários dos laboratórios Abbott e Roche.

Radominski SC: Recebeu “grants” por palestras, simpósios e “advisory board” dos laboratórios Novartis, Merck Sharp & Dohme, Aventis, Abbott, Pfizer, Schering-Plough e Wyeth.

Bretas FFH: Recebeu honorários por apresentação em palestras da Novartis.

Zequi SC: É palestrante em eventos patrocinados pelas empresas Bayer e AstraZeneca; prepara textos científicos e periódicos patrocinados pela empresa Novartis.

Clark O: Recebe honorários por apresentações, conferências, palestras, organização de atividades de ensino e consultorias das empresas Schering-Plough, AstraZeneca, Novartis, Bayer, Bristol-Mayers, Eurofarma, Janssen-Cylag, Unimed e Sociedade Brasileira de Urologia.

Moreira RO: Recebeu da companhia Merck do Brasil S/A, empresa responsável pelo produto Thioctacid (Ácido Alfa Lipóico), verba referente à produção de material de divulgação para classe médica. A medicação é a primeira citada em Tratamento na mesma diretriz (Tratamento da Neuropatia Diabética).

Abdo CN: Recebeu honorários por apresentações, conferências e palestras dos laboratórios Pfizer, Lilly, Bayer, Schering do Brasil, Organon e Janssen-Cilag.

Bertero EB: É conferencista dos laboratórios Lilly, Pfizer e Bayer; é membro de conselho consultivo brasileiro do laboratório Pfizer e membro do conselho consultivo Iiternacional do laboratório Bayer.

Faria GE: É palestrante dos laboratórios Lilly, Pfizer, Bayer, Schering e Medley; é membro do conselho consultivo da América Latina do laboratório Lilly.

Torres LO: Recebeu honorários por apresentações, conferências, palestras e prestação de consultoria dos laboratórios Pfizer, Lilly, Bayer e Medley.

Glina S: Recebeu honorários por ministrar aulas em simpósios dos laboratórios Bayer, Glaxo-Smith-Kline, Lilly e Pfizer. Participou do conselho consultivo dos laboratórios Bayer, Lilly e Pfizer.

Sette Jr H: É consultor científico da Bristol Myers-Squibb desde 2007.

Pessôa MG:  Recebeu honorários como consultor e palestrante das empresas Roche, Bristol Myers-Squibb, Glaxo Smith- Kline e Novartis.

Galizzi Filho J: Recebeu honorários como palestrante na 1ª Conferência Nacional de AIDS e Hepatites Virais da empresa Bristol-Myers Squibb e em eventos das empresas Roche e Schering-Plough.

Mancini MC: Palestrante dos laboratórios Abbott, Medley, Roche e Sanofi-Aventis. Ex-membro do corpo consultivo do laboratório Roche.

Benchimol AK: Recebeu honorários por apresentação em conferência ou palestra patrocinado pelas empresas Abbott, Abbott Nutrition, Libbs, MSD, Novo Nordisk, Sanofi-Aventos e Torrent; recebeu honorários para consultoria patrocinado pela Abbott, Abbott Nutrition, MSD e Novo Nordisk.

Halpern A: Recebeu honorários por apresentação em conferência ou palestra patrocinado pelas empresas Abbott, Glenmark, Medley, Roche e UCI; recebeu honorários para consultoria patrocinado pelas empresas Glenmark e Roche.

Gelonese B: Recebeu honorários por apresentação em palestras patrocinado pelas empresas Roche, Germed, Novartis, Merck Sharp & Dohme, Lilly e GSK; Recebeu honorários por trabalhos de consultoria científica patrocinado pelas empresas Germed, Merck Sharp & Dohme e GSK.

Danowski J: Recebeu honorários por participação em palestra patrocipada pelas empresas Sanofi-Aventis, Ely Lilly e Novartis; recebeu honorários por organizar atividade de ensino.

Terreri MT: Recebeu honorários para organizar programas educativos patrocinado pelas empresas Eurofarma e Novartis.

Weingril P: Recebeu honorários por apresentação, conferência ou palestra patrocinadas pela empresa Servier; é membro do Advisory Board da empresa MSD; recebeu honorários para participar de congressos patrocinados pelas empresas Abbott, Pfizer, Servier e Roche.

Plapler PG: Recebeu honorários por participação em eventos, por ministrar aulas, comitê consultor e redação de textos científicos patrocinados pelas empresas Aché, Ely Lilly, SEM, GSK, MSD, Novartis, Sanofi-Aventis, Servier e Zodiac.

E por aí vai....

A pergunta chave é: declarar resolve o problema?

Existindo conflitos de interesse, todos somos potencialmente influenciáveis (até mesmo os médicos, até mesmo o autor deste blog)

Declaração de Conflitos de Interesse - Dá para Confiar?

Conflitos de interesse na educação médica: declaração pode não ajudar

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Vamos voltar a fazer eventos com a indústria farmacêutica?

A pressão é muito grande para que ocorra. No caso da SOBRAMH não seria voltar, já que a fundei "thinking outside the box", tornando isto claro na Visão (em 5 anos) que escolhemos em 2008, tendo me surpreedido com a possibilidade de atingir muito antes do previsto resultados que não fui capaz de perceber anos atrás enquanto diretor de associação médica tradicional e tendo a indústria farmacêutica como parceira. Analisando os resultados quantitativos e qualitativos dos dois grandes eventos que fizemos sem a participação da indústria de medicamentos, considerando que as receitas foram sempre maiores do que as despesas, não compreendo totalmente, mas aceito algumas justificativas. Houve, de qualquer forma, patrocínios condicionados a participação na grade e palestras que pareceram, na minha opinião, mais promoção do que qualquer outra coisa. E eu era o presidente ou o principal organizador do evento! O que fortalece a necessidade de transparência e controle, com ou sem a participação da indústria de medicamentos e tecnologias.

Alternativa então seria "voltar" a aceitar relacionamento comercial com a indústria de medicamentos, mas desenvolver uma boa política de relacionamento e conflitos de interesse. Os erros de um modo geral (erros médicos, casos onde sucumbimos a conflitos de interesse, corrupção) são inerentes às organizações e às pessoas. O desafio é buscar ações de verdade para reprimí-los e impor um "ciclo PDCA" de melhoria contínua.

Evocar a ética para o bom funcionamento das entidades não basta. Que a política sirva de exemplo. Veja isto agora no universo das associações médicas. Fazê-lo, mas, paralelamente, minimizando a importância da influência na relação comercial com empresas e parceiros, vai contra tudo que se discute mundialmente para qualificação da educação médica. Evocar a ética no tom "nós faremos direito" poderia gerar uma forte reação de outras associações médicas (Como assim? Estão sugerindo que nós já não fizemos assim? Pensam que são os paladinos da ética?). E acho que justificada. Na maioria das organizações as pessoas por trás são profissionais sérios e dedicados.

Como elaborar este código de condutas? Vou usar deste espaço para uma tentativa de inspirá-lo.

Dividirei neste momento o trabalho em 4 seções principais: Aspectos gerais; Feira e área de exposição, presentes e sorteios; Simpósios satélites; Outros patrocinadores além de indústrias de medicamentos e tecnologias. É para auxiliar na construção de um código de conduta para associações, e não para seus eventos apenas, embora sejam o foco. Trarei ideias várias que for encontrando, não necessariamente traduzem convicções pessoais. Outras representam puramente opiniões pessoais minhas mesmo.

Aspectos gerais:

Transparência é importante, mas não é suficiente.

Disclosure is not sufficient (The Accreditation Council for Continuing Medical Education (ACCME) standards for commercial support)

Os sócios devem ter acesso fácil a todas as informações e números relativos à associação e seus eventos.

Devemos trabalhar para uma proibição completa do vínculo comercial com indústria de medicamentos e tecnologias. Exceção poderia ficar a cargo da comercialização de espaço para estandes em área específica nos eventos. Não é o ideal, mas assim pelo menos os sócios e demais participantes podem facilmente distinguir estas ações como promocionais, podendo ignorá-las, se assim quiserem (David J. Rothman, PhD, president, Institute on Medicine as a Profession, and Bernard Schoenberg Professor of Social Medicine, College of Physicians and Surgeons, Columbia University, New York, New York; Walter J. McDonald, MD, past CEO, Council of Medical Specialty Societies, Chicago, Illinois; Carol D. Berkowitz, MD, past president, American Academy of Pediatrics, Elk Grove Village, Illinois; Susan C. Chimonas, PhD, research scholar, Center on Medicine as a Profession, College of Physicians and Surgeons, Columbia University, New York, New York; Catherine D. DeAngelis, MD, MPH, editor in chief, JAMA, Chicago, Illinois; Ralph W. Hale, MD, executive vice president, American College of Obstetricians and Gynecologists, Washington, DC; Steven E. Nissen, MD, past president, American College of Cardiology, Washington, DC; June E. Osborn, MD, past president, Josiah Macy, Jr Foundation, New York, New York; James H. Scully Jr, MD, medical director and CEO, American Psychiatric Association, Arlington, Virginia; Gerald E. Thomson, MD, past president, American College of Physicians, Philadelphia, Pennsylvania, and chairman of the board of directors, Institute on Medicine as a Profession, College of Physicians and Surgeons, Columbia University, New York, New York; and David Wofsy, MD, professor of medicine, University of California, San Francisco).

Nenhum logotipo de indústrias de medicamentos e tecnologias deve aparecer em sacolas, pastas, projeções, canetas, blocos e publicações oficiais do evento (the Pharmaceutical Research and Manufacturers of America (PhRMA) and the Advanced Medical Technology Association (AdvaMed) voluntary codes, 2009).

A escolha dos temas e palestrantes é tão especial que membros dos comitês organizador e científico não podem ter conflitos de interesse com a indústria farmacêutica ou de tecnologias e devem se responsabiliar individualmente por esta declaração, a ser tornada pública, pelo menos entre os membros da associação.

Temas e palestrantes da grade do evento preferencialmente não devem ter ligação com empresas ou entidades financiadoras da associação ou do evento, exceto em casos individualizados em Outros patrocinadores além de indústrias de medicamentos e tecnologias.

Palestrantes como conflitos de interesse maiores (por exemplo, acionista ou speaker profissional da indústria) estariam proibidos de participar como educadores no evento. Poderíamos limitar a participação daqueles com conflitos menores (a definir quais seriam) em algum percentual, garantindo o predomínio na grade de educadores livres de conflitos de interesse com a indústria de medicamentos e tecnologias. No caso de participarem, considerar sempre atividades do tipo Ponto e Contraponto.

Quando a atividade na grade pontuar via CNA - Comissão Nacional de Acreditação, independente de para qual Sociedade de Especialidade estiver pontuando, minha recomendação seria de buscar ausência total de conflitos de interesse, principalmente nas palestras clínicas ou técnicas. É uma forma de respeitar os médicos que, obrigados a pontuar para manter seu título de especialista, desejam educação médica independente, mesmo que sejam minoria.

A associação, sem autorização de seus sócios, não pode, em hipótese nenhuma, compartilhar com terceiros nomes e endereços dos seus membros.

Conflitos de interesse envolvendo presidentes, tesoureiros e demais diretores da associação: A reputação da entidade é geralmente baseada na qualidade e integridade de seus líderes. É essencial que apliquem sobre si mesmos os mais rigorosos padrões de regulação e transparência. Devem permanecer livres de conflitos de interesse durante o mandato. Para estes indivíduos, nenhum ganho direto da indústria deve ser aceito (David J. Rothman; Walter J. McDonald; Carol D. Berkowitz; et al). Pode ser necessário um prazo para as associações se adequarem a isto, por exemplo, deliberando em assembléia geral para a próxima gestão.

"ACCME requires that relevant financial relationships of all individuals in a position to control CME content be identified and resolved prior to that individual’s participation in development or delivery of CME activities" - Mayo CME Policy

Colaboradores e funcionários da associação médica não devem ter laços financeiros com indústrias de medicamentos ou tecnologias e devem ser proibidos de aceitar presentes ou favores destas corporações. Indústria de medicamentos e tecnologias não podem financiar diretamente nenhuma atividade de diretoria ou colaboradores. Despesas de viagens e eventos, incluido alimentação, são de responsabilidade da própria associação ou das pessoas físicas (David J. Rothman; Walter J. McDonald; Carol D. Berkowitz; et al).

Feira e área de exposição; Presentes e sorteios:

A associação pode comercializar com qualquer empresa espaço para estandes em área apropriada para tal durante eventos. Entretanto, este espaço não pode ser a passagem única para as áreas de apresentações científicas ou educacionais e deve ser claramente delimitado para que os participantes enxerguem automaticamente que estão próximos de uma área de promoção e marketing e possam escolher por entrar nela ou não. A associação médica pode e deve estabelecer regras de condutas dentro da área de exposição, banindo todo tipo de presentes e sorteios (David J. Rothman; Walter J. McDonald; Carol D. Berkowitz; et al).

Médicos não devem receber diretamente amostras grátis (Columbia University's Center on Medicine as a Profession).

Prescription Project interviews indicate that many AMCs eliminated samples to ensure patient safety and compliance with Joint Commission standards (Columbia University's Center on Medicine as a Profession).

The Pharmaceutical Research and Manufacturers of America (PhRMA) code: The revised code, which goes into effect in January 2009, prohibits distribution of noneducational items to healthcare professionals. This even includes small gifts, such as pens, notepads, mugs, and similar “reminder items” with company or product logos on them, even if they are practice-related. Such gifts “may foster misperceptions that company interactions with healthcare professionals are not based on informing them about medical and scientific issues,” states the code.

“YMG physicians may not accept any form of personal gift from industry or its representatives" - Yale Policy 2006.

“Personal gifts from industry may not be accepted anywhere at the Stanford School of Medicine, Stanford Hospital and Clinics, the Lucile Packard Children’s Hospital, the Menlo Clinic or off site clinical facilities such as other hospitals at which Stanford faculty practice, outreach clinics and the like" - Stanford Policy, 2006

Simpósios satélites:

Se forem autorizados, não pode haver chancela da associação, o que é bem diferente. Sua divulgação deve ficar inteiramente a cargo do responsável. Deve ser apenas um espaço sub-locado e sujeito ainda à regulação.

Membros da diretoria, comissões e comitês não podem ser co-responsáveis ou palestrantes em simpósios satélites (Society of Hospital Medicine COI Policy 2011).

Não deve ser permitido oferecer brindes, presentes, sorteios ou refeições durante estas atividades (Columbia University's Center on Medicine as a Profession).

“Individuals may not accept gifts or compensation for listening to a sales talk by an industry representative" - Stanford Policy, 2006

"Vendors are not permitted to bring food into any UMM facility for any meetings and are prohibited from paying for such food" - UMass Policy, 2007

Outros patrocinadores além de indústrias de medicamentos e tecnologias:

Tecnologia da informação também é tecnologia!

Entidades Governamentais: Não encontro na literatura evidências desfavorecendo esta ligação, tal como há com indústrias de medicamentos e tecnologias, mas em tese podem influenciar (como qualquer opinião). No I CBMH e no PASHA 2010 houve participação na grade de representantes destas entidades. Entendo que participações do tipo "a visão da entidade ou agência x sobre p.e trabalho em equipe, autonomia médica, segurança do paciente..." possam ser limitadas a 10% do conteúdo da grade, valendo o mesmo para entidades médicas como autarquias federais.

Debato com pessoas que são absolutamente contra o financiamento público da educação médica adiante da graduação. Haveria duas formas de lidar com isto: Os médicos assumirem uma parcela maior do investimento para sua própria educação. Incentivar o financiamento privado. Me parece óbvio que os defensores do finaciamento privado devem ser os principais protagonistas na elaboração de políticas de controle e regulação dos conflitos de interesse neste cenário.

Entidades médicas (associações ou sindicatos): Seria compreensível o mesmo tipo de restrição proposta a entidades governamentais, como forma de tornar o evento menos político e mais técnico.

Acreditadoras e empresas que prestam consultorias na áreas de qualidade e segurança: Privilegiar na grade de programação apresentação de cases diretamente por hospitais ou serviços beneficiados, através de profissionais ligados diretamente ou próximos ao atendimento de linha de frente.

Hospitais: Por mais que perceba como comuns apresentações que mais parecem promoção ou marketing institucional, acho que aqui basta declaração de conflitos de interesse e confiança na comissão científica. Eventos que incorreram sistematicamente neste equívoco, perderão força por sí próprios.

“This updated Code fortifies our companies’ commitment to ensure their medicines are marketed in a manner that benefits patients and enhances the practice of medicine.” - Billy Tauzin, president and CEO of PhRMA, about the Pharmaceutical Research and Manufacturers of America (PhRMA) and the Advanced Medical Technology Association (AdvaMed) voluntary codes, 2009. Se a indústria pode demonstrar este tipo de postura, nós médicos também seremos capazes...

terça-feira, 21 de junho de 2011

Conflitos de interesse: possíveis soluções

Conversei demoradamente com a jornalista da Folha de São Paulo sobre o que gerou a matéria publicada em 14/06/2011. Por razões de fácil compreensão, apenas parte foi aproveitado. Sinto-me honrado de ter podido contribuir em meio a opiniões de pessoas tão importantes, como o presidente do Conselho Federal de Medicina.

Divulgo abaixo mais detalhes, e espero a partir disto poder abrir aqui um canal de discussão do mais alto nível sobre o assunto.

Não sou necessariamente a favor de todas as alternativas que serão elencadas abaixo para lidar com conflitos de interesse na Medicina. Há prós e contras na maioria delas. Discutí-las individualmente ou acrescentar à lista pode gerar um debate mais do que interessante e espero contribuições levando em conta que somente no último mês foram mais de 1.200 visualizações de páginas no Blog.

A matéria na Folha trouxe resultados do estudo mais recente, mas o fato é que têm surgido cada vez mais evidências de que a simples declaração de conflitos de interesse não é solução ou até pode piorar as coisas. Importante: Quando isto é dito, não significa que estimulemos a sua não realização. Significa dizer que isoladamente não serve!

Disclosure não é tão defendido por acaso. É “cost-free”, não proíbe nada, não pressupõe mudança de cultura nas organizações médicas, consola a massa e alivia pressões para que se busquem outros caminhos, alguns tortuosos.

Há vários pontos de intervenção possíveis na abordagem dos conflitos de interesse, e, pela sua complexidade, é improvável que qualquer alternativa isoladamente seja suficiente. No âmbito da prevenção, podemos citar ‘proibições’(como de receber presentes da indústria farmacêutica). Mas restam ainda diversas estratégias de educação e regulação (paralelamente a atuação profissional), bem como de penalizações ou compensações (a partir de atos executados). A tendência, para verdadeiramente atenuar o problema, tem sido agir em diversos pontos simultaneamente.

Então, se a transparência somente não resolve, o que pode ser feito? Usemos de exemplos práticos:

Proibir o médico de ganhar o iPad do laboratório? O risco de causar dano direto aos pacientes a partir de um médico ganhando um tablet de um propagandista é baixíssimo. Mas está comprovado que em larga escala esta prática influencia e altera o padrão das prescrições médicas. Os pacientes e a sociedade podem querer que sejam impostas restrições - e então caberia a quem os representa promover isto, doa a quem doer. Há mínimo valor social envolvido neste ato, e os pacientes e a sociedade teriam muito pouco a perder com a proibição dele. Contraria interesses corporativos poderosos.

Na Educação Médica Continuada: É possível defender (ou pelo menos debater melhor) algumas alternativas. Só não é possível ficar como estamos (leia-se: parados).
- Proibição de patrocínios da indústria de medicamentos e tecnologias a congressos médicos. 
O I Congresso Brasileiro de Medicina Hospitalar e o PASHA2010 demonstraram que é possível fazer grandes eventos sem a indústria de medicamentos. Teríamos que ampliar a discussão sobre financiamento alternativo ao tradicional para replicar isto em larga escala. 
Por que não a partir dos impostos das farmacêuticas, por exemplo? Fosse para ser criado e aprovado algo assim, provavelmente não poderia beneficiar iniciativas como as desenvolvidas por mim ( I CBMH e PASHA2010), em não se tratando a Medicina Hospitalar de uma especialidade ou área de atuação reconhecida ainda. Não poderia ser feito um Projeto de Lei que considerasse esta sugestão ou algo parecido para benefiar especialidades reconhecidas pela Comissão Mista de Especialidade? 
In the United States, commercial interests contribute over $2 billion annually for CME. If commercial support for other professional activities also amounts to $2 billiion, the $4billion spent would be 0,0016 percent of national health care spending in 2008, about $13,16 per person. The government could shoulder the cost of professional development without difficulty (Conflicts of Interest and the Future of Medicine, Marc A Rodwin, 2011). 
- Tornar farmacêuticas incapazes de financiar diretamente. O fariam coletivamente e sob intermediação de conglomerado de entidades governamentais e não governamentais. Discutir regras claras e mecanismos de controle e transparência seria absolutamento necessário aqui. 
- Peer Review dos congressos médicos (da importância dos temas ao conteúdo apresentado). 
Será que todo evento de Clínica Médica precisa mesmo de uma palestra de disfunção erétil? Seria o controle disto possível de ser feito pela Comissão Nacional de Acreditação, já que é responsável por avaliar e autorizar cursos e eventos, bem como por assegurar a qualidade deles? Cabe lembrar que nós médicos pagamos indiretamente para manter a CNA (recebem do evento 3% sobre o maior valor de inscrição local x nº de participantes). Eu tenho tido dificuldades de enxergar retorno disto, já que não preciso de nenhum "incentivo" para participar de congressos.
- Organizações ou grupos independentes e sem conflitos de interesse (?) seriam responsáveis por desenvolver o programa dos eventos.
Na Pesquisa Clínica: As farmacêuticas são as grandes financiadoras e sem elas poderia ocorrer um retrocesso. Muitas vezes controlam todas as etapas que culminam com a publicação de um ensaio clínico randomizado. O que pode ser feito? Permitir que sigam finaciando estudos, podem até fazê-los independentemente quando nas fases I ou II. No entanto, em se tratando de um estudo de fase III, exigiríamos que uma agência pública escolhesse os pesquisadores para fazer o design e conduzir o trial. Outra necessidade nesta área seria viabilizar melhor controle dos estudos de fase IV (Seeding Trials; The ethics of “seeding trials”; Seeding trials - marketing framed as science).

Nos Guidelines: Não permitir que indivíduos com grosseiros conflitos de interesse participem ou que, pelo menos, votem.

Por fim, mas não menos importante: Profissionalismo Médico. Profissionalismo pode modelar conduta de diversas formas, de maneira que mercado e controle estatal não podem ou não fazem. Devemos trabalhar isto desde o início da faculdade de Medicina e ininterruptamente a partir daí. Mas, se as autoridades públicas continuarem financiando inadequadamente o setor Saúde (e os médicos), será cada vez mais difícil por esta via.

Se médicos e sociedades médicas querem controlar seu trabalho, garantindo máxima autonomia (como dão sinais de querer), devem garantir à sociedade que o seu julgamento e suas orientações não estão comprometidos. Senão o fizerem, então outros assumirão este papel e não poderemos reclamar das conseqüências. Um bom começo é reconhecer que isoladamente não somos capazes de lidar bem com conflitos de interesse interna corporis (nenhuma corporação isoladamente seria). E, a partir disto, nos abrir para o debate e participar dele como protagonistas, evitando sermos vistos como parte do problema - e não da solução.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Sanofi acusada de pagar Society of Hospital Medicine para fazer lobby na FDA contra genéricos

Um relatório do Comitê de Finanças do Senado dos EUA afirma que a Sanofi pagou mais de 5 milhões de dólares a dois grupos de médicos e a um investigador para realizarem uma "interação independente" com a FDA, num esforço para atrasar a aprovação de uma versão genérica do Lovenox® (enoxaparina). O presidente do Comitê, Max Baucus, disse que "o relatório revela evidências de que o pagamento aos médicos para fazerem lobby na FDA contra genéricos foi uma estratégia da empresa farmacêutica - e isso é totalmente inaceitável".

Segundo o relatório, entre 2007 e 2010, a farmacêutica pagou mais de 2,6 milhões de dólares à Sociedade de Medicina Hospitalar, mais de 2,3 milhões de dólares à North American Thrombosis Forum, e mais de 260 mil dólares a Victor Tapson, um especialista em trombose da Duke University. Os três elementos visados participaram numa petição ao FDA sobre preocupações em relação às versões genéricas do Lovenox® após o "incentivo" da Sanofi, revela o relatório.

Registos obtidos pelo comitê indicam que a Sociedade de Medicina Hospitalar foi inicialmente reticente em participar no processo uma vez que "não tinha histórico de fazer comentários semelhantes à FDA". No entanto, o e-mail acrescentou: "Queremos dar a qualquer questão que é importante para a nossa parceira a nossa consideração cuidadosa".

Comentando o relatório, a Sanofi disse que "a petição de cidadãos para o Lovenox® e os comentários de alguns especialistas de fora levantaram questões importantes e legítimas sobre a segurança dos doentes".

A primeira versão genérica do Lovenox® foi aprovada pela FDA em julho do ano passado, e é comercializado pela unidade de genéricos da Novartis, a Sandoz, e a sua parceira Momenta Pharmaceuticals. Outros pedidos de versões genéricas apresentados por outras duas farmacêuticas estão pendentes. As vendas globais do produto da Sanofi atingiram mais de 4 mil milhões de dólares em 2009.

Leia mais sobre o assunto em:

Senators Question Industry Ties to Medical Groups

Campanha Alerta - em 2010, enquanto coordenador e editor do site da Alerta, eu já havia encontrado e publicado notícias sobre o assunto.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

ATS2011 e conflitos de interesse




É avançadíssima a parceria da American Thoracic Society com as organizações farmacêuticas!

 Declaram potenciais conflitos de interesse financeiros, mas, segundo a ATS: "the grants have no influence on the content, quality and scientific integrity of this CME activity".






Ao sair do quarto do hotel pela manhã para ir ao ATS2011, o participante encontrava propaganda personalizada na porta. As farmacêuticas recebem, portanto, todas as informações, inclusive onde estás hospedado e o número do apartamento.

Na maçaneta, em um dos dias, havia uma propaganda muito bem bolada. Dentro da sacola, ofereciam conhecimento e brinde tentador.

Com a indústria ficando na área de exposição, o médico tem a opção, na origem, de buscar ou não o contato. Não deveria o evento garantir pelo menos isto? Bom ponto para discussão.

Em certos momento, quase tive vergonha de ter ido aos EUA e a um evento tão caro inteiramente com recursos próprios. Muitos brasileiros que encontrei perguntaram: "Vieste por quem? (leia-se, por qual laboratório?).

Houve um jantar em Denver da Sociedade Brasileira de Pneumologia. "Era para ter sido por adesão ($50), mas acabou que laboratório pagou", contou um amigo. Nossas próprias sociedades nos empurram para este tipo de relação envolvendo ganho de presentes.

Fiquei com a nítida impressão algumas poucas vezes de que ocorreram apresentações "contaminadas", mas é impossível dizer se isto realmente aconteceu ou se simplesmente foi o caso de alguma opinião em territótio permitido, já que, especificamente onde me chamou a atenção, discutíamos assuntos definitivamente controversos.

Um dos pontos fortes do ATS2011 foi a atividade intitulada The consequences of five important papers: from the author (and the editor), da qual participaram ícones da Medicina Intensiva como Marini, Tobin e Connors. Conflitos de interesse estiveram direta ou indiretamente em discussão quando abordadas duas publicações: o PROWESS, ECR positivo da droga Xigris em sepse grave, e o EGDT Trial, estudo positivo do pacote Early Goal de Rivers. Sem entrar no mérito do impacto de potenciais conflitos de interesse nos resultados do PROWESS, até porque não foi o foco da discussão lá, percebi que era opinião de muita gente que a incorporação da evidência à prática foi mais prejudicada do que ajudada pela maneira como a milionária campanha de marketing do laboratório (umbelicalmente atrelada à Surviving Sepsis Campaign) foi conduzida. Nós médicos fomos literalmente empurrados contra a parede ("... because Xigris was relatively expensive, word would be spread that physicians were being "systematically forced" to decide who would live and who would die"). Novos ECR's estão em curso para avaliação do Xigris e da EGDT.

No final do ATS, realizaram um painel que discutiu relacionamento com a indústria. Mas trazendo quase que hegemonicamente somente um ponto de vista: a favor. Isto pode ser ilustrado pelo título de uma das apresentações: Industry-Academic Collaboration: An Example of Succes. Trago eu então um contraponto: The role of physician ‘opinion leaders’: Physicians who attended sponsored presentations by another physician wrote an additional $623.55 worth of prescriptions in the next year versus non-attendees. More intimate discussions were even more effective (average $717.53 extra sales per physician). From an internal Merck document, in: Caplovitz A. Turning Medicine into snake oil. NJPIRG Law & Policy Center, 2006.

sexta-feira, 18 de março de 2011

Relacionamento entre médicos, estudantes de medicina e farmacêuticas

Durante o PASHA2010, aplicamos um questionário sobre Relacionamento entre médicos, estudantes de medicina e farmacêuticas. Infelizmente não recolhemos um n suficiente para gerar uma publicação científica, mas de qualquer forma vamos aqui apresentar os dados. Consideramos repetir a iniciativa em algum momento.

40 pessoas entregaram os questionários preenchidos. 65% dos respondedores eram estudante de Medicina. Os demais se identificaram como médicos ou gestores.

Quando questionados se é apropriado receber presentes da indústria farmacêutica de baixo valor monetário (canetas, mousepads, etc), a maioria (61%) respondeu que sim (concordo fortemente ou concordo).

Quando questionados se é apropriado receber presentes da indústria farmacêutica de maior valor monetário (smartphones, inscrições em congressos, viagens, etc), a maioria (71%) respondeu que não (discordo fortemente ou discordo).

Quando questionados se os materiais educativo-promocionais distribuídos pela indústria farmacêutica são usualmente fontes confiáveis para obter informação a respeito de novos medicamentos, a imensa maioria respondeu que não.

Apesar de não confiarem na informação dos propagandistas, de considerarem inadequados os presentes de alto valor monetário e de alguns terem respondido espontaneamente em espaço que era livre desdenhando dos presentes de baixo valor, quando questionados se o seu hospital ou faculdade deve impedir o contato de representantes de laboratórios, 54% dos médicos não concordam. Os estudantes têm uma tendência a concordarem, mas também parecem bastante divididos.

A maioria não acha inadequado que o médico receba presentes de baixo valor monetário, e também não considera (58%) que estes presentes influenciem a prescrição médica.

A maioria considera inadequado receber presentes de maior valor monetário e aceita (65%) que influenciam as prescrições médicas.

O PASHA2010 não aceitou financiamento de indústrias de medicamentos como política de conflitos de interesse, acreditando ser importante para a promoção do uso racional. Quando questionamos os participantes se eventos médicos com a participação das farmacêuticas tendem a ser enviesados, 84% responderam que sim (concordo fortemente ou concordo).

O fato do PASHA2010 não ter estabelecido por opção nenhuma forma de relação com a indústria farmacêutica teve alguma influência na sua decisão de participar?

3% responderam que influenciou negativamente, 36% que influenciou positivamente. A maioria referiu que não influenciou, o que definitivamente faz refletir sobre o esforço empregado para viabilizar um evento neste formato. Está mesma maioria descreve eventos em parceria com a indústria como enviesados.

É bastante interessante a análise de alguns comentários que foram feitos espontaneamente pelos participantes.

- “É apropriado receber presentes, desde que havendo ética, sem influenciar”. Condenando os casos de corrupção intencional, mas parece não dar importância ao quanto poderíamos ser influenciados de outras formas. A mesma pessoa não dá importância ao fato do evento ser ou não ser financiado por farmacêuticas: “sei avaliar”. Eu não tenho a mesma convicção sobre a minha própria capacidade.

Uma pessoa que respondeu que não gostou do fato do PASHA2010 não ter aceitado participação da indústria, escreveu que “adoraria receber brindes, sem que isto interferisse. O paciente em primeiro lugar”.

Geralmente inscrições e estadias são muito caras. Se não se tem o dinheiro, por que não aproveitar a oportunidade de se atualizar?” A mesma pessoa mais adiante respondeu Concordo em relação à afirmação: Congressos em parceria com a indústria tendem a ser enviesados.

Acredito que certos médicos, infelizmente, se deixam influenciar”. É comum enxergamos o problema nos nossos pares, mas não em nós próprios. Vide postagem anterior

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Médicos ”loteiam” eventos para a indústria

A Folha de São Paulo publicou recentemente matéria com esta afirmação no título. Segundo divulgaram, empresas bancam de palestrantes a papel timbrado e a maior parte dos médicos defende o patrocínio aos eventos.
Tudo o que acontece nos eventos médicos é hoje patrocinado pela indústria de remédios e de equipamentos.

A maioria (58%) dos médicos paulistas ouvidos em pesquisa do Cremesp (Conselho Regional de Medicina do Estado de SP), divulgada ontem pela Folha, concorda que os congressos sejam financiados pela indústria. Uma parcela (19%) vai ainda mais longe: é favorável a que a indústria opine sobre a programação de congressos e simpósios médicos. As sociedades médicas garantem que essa interferência não ocorre. Nem mesmo quando os próprios palestrantes do evento são patrocinados pela indústria.

Segundo o cardiologista Miguel Antonio Moretti, coordenador de planejamento e infraestrutura da SBC (Sociedade Brasileira de Cardiologia), é a entidade que escolhe o palestrante, sem nenhuma interferência do patrocinador.

“A empresa custeia a passagem aérea, a hospedagem e a alimentação do palestrante, mas é a SBC que decide quem vai trazer. Ética e transparência são uma questão de honra para nós.”

Moretti afirma que o custo do congresso médico é muito alto e, sem o apoio da indústria, o valor teria que ser repassado aos médicos, o que inviabilizaria a participação da maioria deles.

“Não é todo médico que pode se dar ao luxo de ficar quatro, cinco dias sem ganhar nada e ainda tirar do bolso R$ 3.000, R$ 4.000 para participar de um congresso. Sem a indústria, esse custo seria muito maior.”

O médico José Luiz Gomes do Amaral, presidente da AMB, diz que os 4.000 eventos científicos que ocorrem anualmente no Brasil são essenciais não só para a atualização médica como para a troca de opiniões. “A indústria pode divulgar, patrocinar os congressos médicos. O que não pode é distorcer a informação.”

Fonte: Folha de São Paulo / Claudia Collucci
O mesmo assunto já foi trabalhado por Ray Moynihan, University of Newcastle, New South Wales, and visiting editor, BMJ: ‘Doctors’ education: the invisible influence of drug company sponsorship.

We’ve all been there—the educational seminars, the medical symposiums, and the scientific conferences generously sponsored by big drug companies. The visible signs of sponsorship at these events are obvious. But what about inside lecture theatres, where high quality education is delivered to doctors by respected speakers?

It is not uncommon for drug company sponsors to suggest speakers at sessions that are assumed by the thousands of general practitioners who attend them to be totally independent.

In the case of one popular Australian provider of medical education, HealthEd, leaked documents and emails from a range of sources show drug company sponsors having input into the selection of some speakers at seminars held in recent years, despite the fact that these have been aggressively sold to general practitioners in brochures claiming that “all content is independent of industry influence.”

In an email to the drug giant Sanofi-Aventis, HealthEd asks, “Could you please suggest a couple of speakers for our scientific committee’s approval?” One of the speakers suggested by the drug company sponsor is subsequently accepted and delivers a presentation at a HealthEd seminar. Doctors attending that seminar, held at a university, were not verbally informed of the sponsor’s role in suggesting speakers.

In another email the drug company Organon, now part of Schering-Plough, writes that “we would like to put forward the following two doctors for consideration” as speakers for a seminar on women’s health. The educational provider replies, “We will do our best to accommodate your request.” The drug company’s suggested speakers are ultimately accepted, provoking this grateful response to the educational provider: “I would like to again sincerely thank you for the political help . . . in respect of orchestrating the favourable consideration of the proposed topic and speaker.”

When asked about its sponsorship arrangements with HealthEd, Schering-Plough’s managing director in Australia, Shaju Backer, said that “as part of the sponsorship, [drug] companies are allowed to suggest speakers and topics.”

top level “platinum” sponsors were routinely offered the chance to “work with us to determine a speaker and topic for the programme”

O presidente da AMB entende que "a indústria pode patrocinar os congressos médicos. O que não pode é distorcer a informação". Ora bolas, o ponto de partida deveria ser: distorcemos informações nos eventos médicos, voluntariamente ou não. Como resolver ou atenuar o problema?

Ou não existe isto e matérias como a do BMJ são meras sementes da discórdia plantadas pela "mídia comunista"?

Ou não acontece destas coisas no Brasil?

Direto ao ponto:

1. Nos eventos que organizei, sendo os principais o I CBMH e o PASHA2010, aconteceu de patrocinadores participarem da grade do evento transmitindo informações ao público. Alguns, quando abordados na busca por patrocínio, já haviam previamente recebido o convite. Na ocasião, chamamos isto de estratégia de captação de parceiros comerciais.

2. Sim, eu teria eventualmente fechado a grade destes eventos diferente, se não houvesse estabelecido alguns conflitos de interesse e/ou vínculos comerciais.

3. Muitas das palestras já proferidas por mim representando entidades médicas ocorreram havendo o patrocínio pela entidade ao evento que me recebeu como speaker.

Tudo isto envolve questões bastante complexas, e particularmente são complicadas aquelas que percorrem o capítulo das possíveis soluções para alguns problemas decorrentes. Simples é reconhecer que existem.

Algumas vezes até percebemos o potencial conflito de interesse em si, mas reconhecendo (corretamente) que se expor não significa por si só sucumbir ou cometer ato antiético ou imoral, criamos justificativas para aceitá-lo e aumentamos os riscos. A relativização poderia se dar por acreditarmos em um benefício maior para o movimento ou grupo que representamos, por exemplo. Na prática, ocorrem pressões para relativização e elasticidade moral variadas e por todos os lados. Desconfio automaticamente de quem nega isto, principalmente se já esteve a frente de entidades médicas.

Reconhecendo que vivemos cercados por potenciais conflitos, ao fazer eventos independentes das farmacêuticas, optei por não ter nenhum com as farmacêuticas. Fiz outras escolhas, percori outros caminhos. E não foram sem potenciais conflitos - isto provavelmente pouco existe.

Fazendo da maneira que fiz, acredito um pouco mais em declaração de conflitos de interesse. No que definitivamente não acredito é na negação geral de influência e simples declaração de potenciais conflitos. É como negar a natureza humana do ser humano.

Também não sou simpático à tese de que as lideranças são lideranças justamente porque estão preparadas para lidar com isto. Isto já foi parcialmente discutido em http://www.campanhaalerta.com.br/comentar_noticia.php?id=37#comentarios2 e http://www.campanhaalerta.com.br/index.php?formulario=noticias&metodo=0&id=43&voltar=sim.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Números que faltavam do PASHA2010

R$ 59.500 de inscrições
R$ 123.700 de patrocínios
(R$ 152.700) de custos
R$ 30.500 de resultado

Lembre-se que a maioria das passagens aéreas e diárias de palestrantes internacionais e nacionais foram pagas diretamente por Mayo Clinc e ANVISA.

Mais informações em http://medicinahospitalar.blogspot.com/2010/11/educacao-medica-continuada-sem_22.html

Reforço minha impresão de que os eventos milionários não são necessários para boa qualidade científica. Show de Ivete Sangalo ou similar definitivamente não é. Sociedades médicas em geral podem fazem diferente do que vem sendo feito. Basta quererem.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Educação médica continuada sem financiamento da indústria farmacêutica: é realmente possível? – parte II


Ainda não disponho do relatório final do PASHA2010, sendo necessários os dados finais pela empresa organizadora. Mas acredito que já sejam possíveis algumas colocações e avaliações preliminares: 
  • Formatamos o evento para que tivesse aproximadamente o total de despesas do I CBMH;
  • Vislumbrávamos um total de receitas bastante superior no início dos trabalhos;
  • Não atingimos o público esperado;
  • A prospecção de parceiros comerciais e resultados disto deixaram a desejar;
  • Executamos alguns cortes ao se aproximar da data do evento. Foi a maneira de garantir que não determinasse prejuízo em hipótese alguma - e não ocorreu. 
Tendo sido de aproximadamente 600 pessoas o público final do I Congresso Brasileiro de Medicina Hospitalar, havia para o PASHA2010 três cenários distintos para análises, levando-se em conta o número de participantes: um cenário otimista (1200 participantes), um pessimista (300 participantes) e um realista (600 participantes – o público do I CBMH). Nossa contagem final no PASHA2010 foi de 400 participantes.
  • Observei muitos médicos e estudantes pedindo descontos ou cortesias. Amigos meus que não concordam com a minha postura em relação à indústria farmacêutica foram capazes de entendê-la e não pediram. Foi muito significativo o número de conhecidos e estranhos fazendo isto. E confesso que me chateou em alguns momentos. A inscrição não era cara, principalmente se feita com antecedência. Conheça os valores. Perceba, a partir dos valores, que estiveram até subsidiados, como quando o médico pagava R$ 200,00 para um evento de 4 dias com tantos palestrantes internacionais. Estamos mentalmente preparados (cada um de nós e o sistema) para abandonar o costume de sermos financiados total ou parcialmente pelas farmacêuticas para ir a congressos? Parece que não... 
Terá a indústria farmacêutica financiado algum congressista para que fosse e participasse do PASHA2010? Esta questão é muito interessante, levando-se em conta tentativa recente do Conselho Federal de Medicina (CFM) de restringir viagens patrocinadas. Segundo matéria publicada na Folha de São Paulo, “laboratórios só poderão bancar a ida dos que forem falar em congressos. Médicos brasileiros só poderão viajar para congressos com as despesas pagas pela indústria farmacêutica se forem prestar serviço de cunho científico, como dar uma palestra ou um curso. Com isso, ficará proibido o patrocínio de viagens para o profissional que só for assistir a um evento”. Ainda bem que, logo em seguida, o CFM recuou. Entendam que não sou a favor de que farmacêuticas paguem viagens para médicos assistirem congressos, mas penso que a proposta do CFM teria sido equivocada por diversas razões. Dá a entender, por exemplo, que o problema está preponderantemente em nós, médicos comuns, e não no sistema em si. Qual o pior cenário: médico com conflito de interesse falando a participantes que pagam do próprio bolso ou um speaker que não recebe dinheiro de laboratórios falando para médicos que ganham as inscrições para um evento bem regulado? Não considero as políticas direcionadas apenas para os profissionais da linha de frente adequadas: o foco deve ser o sistema, e não nas pessoas. Os profissionais da linha de frente costumam ser mais vítimas do que culpados (havendo exceções, é claro). Devemos regular o financiamento da educação médica continuada e a forma como isto impacta na grande massa. Há que se buscar soluções principalmente para o que vem ocorrendo na produção e na difusão inicial do conhecimento. Em outras palavras, é preciso focar na raiz do problema (que a meu ver não são os médicos "comuns", embora façam parte dele), e isto inclui rever sim a relação de nossas sociedades médicas com a indústria de medicamentos e de dispositivos de uso direto em pacientes.

Voltando ao PASHA2010...

Patrocinaram ou participaram como parceiros comerciais do evento: Mayo Clinic (co-realizadora, inclusive), ANVISA, Hospital Mãe de Deus, Unisimers, Hospital São Camilo, Grupo A, Hospital Santa Isabel, Dot.lib, Accreditation Canada, UpToDate, Consórcio Brasileiro de Acreditação e Conselho Federal de Medicina. 
  • A agência de eventos oficial se superou na dificuldade para agregar parceiros comerciais ao evento. Os que participaram o fizeram, na sua maioria, após contatos diretos meus ou de gestores independentes que participaram me auxiliando a partir da identificação de dificuldades e problemas.
É factível começarmos a trazer mais parceiros comerciais não tradicionais para os eventos. Demonstrei isto em dois congressos, e talvez as agências especializadas em eventos médicos tenham que aprender melhor como fazer, abandonando a zona de conforto na qual se encontram por trabalhar tradicionalmente com as farmacêuticas e sem precisar ir atrás delas inclusive.

Grandes congressos de sociedades médicas tradicionais têm condições de serem feitos sem essas indústrias tradicionais e com resultados plenamente satisfatórios. Reforço que o meu objetivo principal no PASHA2010 não era o resultado financeiro, embora entenda perfeitamente a necessidade dele ser pelo menos bom para a sustentabilidade de sociedades médicas tradicionais e, a partir de agora, para a própria Sociedade Brasileira de Medicina Hospitalar.

A mídia expontânea gerada pelo PASHA2010, considerando principalmente a matéria da Folha de São Paulo sobre hospitalistas, valeu muito mais do que saldo positivo em conta na fase em que estamos.

A experiência a partir da ausência do palestrante canadense Esteban Gandara em Florianópolis, por problemas de saúde na família, nos oportunizou conhecer melhor alternativas bastante custo-efetivas que existem no campo da educação à distância. Gandara, diretamente do Canadá, e ao vivo, deu sua palestra sem custos adicionais para o evento através de uma ferramenta de web educação do Ottawa Hospital Research Institute. Devemos inovar mais nos eventos médicos para torná-los mais baratos.

Em relação ao PASHA2010, cumpri quase todos meus objetivos. Esperava um público maior, mas de qualquer forma o evento foi fantástico. Sociedades médicas consolidadas podem mais... Mas vários players do sistema terão que sair da zona de conforto.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Vou me informar sobre esses eventos sem patrocínios das farmacêuticas para passar longe!

Comentário deixado no site Folha.com, matéria sobre o PASHA2010:
Vou me informar sobre esses eventos sem patrocínio PARA PASSAR LONGE! Eu que não vou a um congresso para passar a pão e água, dá licença.
Acho que não passamos dificuldades lá no Costão do Santinho, veja as fotos do evento. Além do que havia uma excelente lanchonete no melhor resort de praia do Brasil. Seguirei discutindo sobre a influência em outras postagens, mas sob outra ótica deixo uma questão: realmente precisamos das quinquilharias e lanches dos laboratórios?

Educação médica continuada sem financiamento da indústria farmacêutica: é realmente possível? – parte I

Em 2008, realizei o I Congresso Brasileiro de Medicina Hospitalar, no hotel Serra Azul, em Gramado, sem participação da indústria farmacêutica. Não foi um evento “pobre”, muito menos do ponto de vista científico. Conheça melhor o I CBMH clicando aqui. Houve inclusive programação social com cocktail e banda, oferecidos gratuitamente aos participantes. E com direito a renomado médico americano “descendo até o chão” e puxando “trenzinho da alegria” com dezenas de estudantes de Medicina!

Já participei também da organização de evento de grande porte com a participação da indústria farmacêutica e nele também havia palestrantes internacionais. Meu relacionamento com a indústria farmacêutica desta forma se encerrou em 2005 – desde então, não sou contra farmacêuticas, mas defendo educação médica independente.

Eis uma diferença interessante entre os dois modelos: apenas nas experiências que tive fazendo eventos independentes da indústria farmacêutica foi possível observar uma verdadeira aproximação com os convidados estrangeiros – daqueles que organizaram os eventos e também dos que simplesmente participaram deles.

No relatório apresentado pela empresa organizadora do I CBMH e levado ao conhecimento de todos os co-realizadores do evento consta:

Total de Receitas     R$ 185.346,10

Total de Despesas     R$ 165.360,87

Resultado I CBMH     R$ 19.985,23

Em relação ao total de receitas, foi decorrente de inscrições (R$ 68.000, aproximadamente), patrocínios e apoios (restante). Os principais apoiadores do evento foram: Sindicato Médico do Rio Grande do Sul (co-realizador, inclusive), Hospital Mãe de Deus (principal patrocinador), CNPq, ANVISA, Hospital São Camilo, Artmed, Caixa Econômica Federal, WPD e UpToDate.

Os palestrantes internacionais tiveram seus custos cobertos por suas instituições e isto não está computado acima.

Impactou significativamente em despesas a opção dos organizadores de fazer uma atividade no pomposo Cinema de Gramado, onde reproduzimos o filme The Hospital e discutimos Medicina Hospitalar com pipoca e refrigerante. Poderia ter sido o resultado maximizado, mas não foi por estratégia.

Seria um resultado insuficiente, em não se tratando do muito peculiar I CBMH. Sociedades médicas, para que garantam sustentabilidade e, até mesmo, independência, precisam de muito mais.

Lições do I Congresso Brasileiro de Medicina Hospitalar:

  1. Tendo sido o primeiro grande evento no Brasil desta área nova na Medicina, houve aproximadamente 600 participantes, um público considerado excepcional para o congresso em questão especificamente, mas ainda distante daquele usualmente atingido nos tradicionais congressos médicos de especialidades consagradas. Fosse o mesmo público de mais de 5.000 mil pessoas que esteve presente em evento que ajudei a organizar em 2005 (contando com a participação da indústria farmacêutica), as despesas aumentariam, mas não na mesma proporção das receitas. Grandes congressos têm maior facilidade de serem feitos de maneira independente.
  2. Não fosse o fato de que no I CBMH nosso principal objetivo foi tornar o hospitalista conhecido, poderíamos ter cobrado mais pelas inscrições e teria havido um resultado melhor. Vejam os números: 600 participantes, R$ 68.000 de inscrições. Fazendo 68.000/600, o resultado é aproximadamente 113. Seriam, em média, R$ 113 por participante, ou seja, um valor subsidiado. Oferecemos ainda muitas cortesias para atrair formadores de opinião. A lição aqui: é possível boa arrecadação através de inscrições, não tendo sido exatamente esta a política empregada no I CBMH, por opção. Têm os médicos, eles próprios, condições de bancar grande parte do custo de um evento deste porte, que, repito, não foi pequeno.
  3. Com o número de patrocinadores e apoiadores que participaram do I CBMH, e que foi pequeno, já não foi nenhum absurdo o que cada um investiu no evento. Em se tratando a Medicina Hospitalar de algo ainda pouco conhecido em nosso meio e, naquela época, havendo significativa desconfiança de alguns importantes players do sistema com os “hospitalistas”, fica evidente que uma sociedade médica consolidada é capaz de fazer mais e melhor.
  4. Nossa agência de eventos, na época, não foi muito efetiva na prospecção de parceiros comerciais. Isto ocorreu por questões inerentes ao evento em si, mas também por deficiências próprias. Um modelo mais profissional de gestão de eventos do que empregamos em 2008 e a garantia de público que sociedades médicas tradicionais já possuem antes mesmo dos eventos serem lançados pode sim garantir a viabilidade de projetos independentes das farmacêuticas e mais do que isto, que sejam muito bem-sucedidos.
  5. O número de médicos efetivamente envolvidos na construção I CBMH foi três. Alguns já disseram, ao avaliar os números expostos mais acima, que uma sociedade médica "de verdade" precisa de eventos que dêem resultados muito melhores. Na minha opinião, uma sociedade médica de verdade precisa de participação, envolvimento, colaboração, e trabalho em equipe entre seus membros. O resto será conseqüência. Houve muito pouco disto em 2008. Ocorreu crescimento de lá para cá, mas ainda não atingimos o ideal, ou mesmo chegamos próximos disso. A falta de envolvimento pode ser porque representamos um movimento relativamente novo e com barreiras a superar e/ou porque não soubemos agregar pessoas. Acredito fortemente nisto aqui como causa raiz: CULTURA! É muito comum forte distanciamento entre a maioria das sociedades de especialidades e seus membros, que costumam ser excessivamente passivos. E acho que até neste aspecto houve inovação na experiência que liderei mais recentemente (PASHA2010) e que será discutida em breve – sem deixar desde já de registrar que ainda seria necessário maior e melhor envolvimento de pessoas para maximizar resultados. Não tenho dúvidas, entretanto, de que isto é tangível. Percebo, inclusive, que nas minhas experiências com a Medicina Hospitalar de um modo geral houve (progressiva) maior participação de pessoas da linha de frente do que já fui capaz de observar em outras várias organizações e cenários. A lição aqui é: se um pequeno exército de médicos se envolver para construção de eventos em sociedades médicas e tiver um bom auxílio profissional, é possível fazê-los bem-sucedidos sem a farmacêuticas ou indústria de dispositivos para uso direto em pacientes.
  6. É possível! Mas não é aconselhável inovar de maneiras diferentes de uma vez só.
Veremos em breve como foi com o PASHA2010.

Médico faz evento sem verba de laboratórios

Saiu na Folha de São Paulo:
CLÁUDIA COLLUCCI
ENVIADA ESPECIAL A FLORIANÓPOLIS
Indústria costuma pagar 60% dos custos   
Hora do coffee break no Congresso Pan-Americano de Medicina Hospitalar, no Costão do Santinho, em Florianópolis (SC). Diferentemente de outros eventos médicos, onde impera a fartura de cafés e guloseimas, neste só havia café e água de graça. Não houve ainda distribuição de brindes, outra estratégia da indústria para atrair médicos para os estandes.

É a primeira vez que um evento médico, de porte internacional, é feito no país sem patrocínio dos laboratórios, responsáveis hoje por mais de 60% dos custos dos congressos médicos.

Os principais financiadores foram a Mayo Clinic (EUA), que patrocinou a vinda de palestrantes internacionais, e a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), que pagou a viagem dos palestrantes brasileiros. O restante veio de outros patrocinadores, de alguns estandes (de hospitais e editoras, por exemplo) e das taxas de inscrição.

"Foi um processo muito desgastante. Tivemos que colocar dinheiro do bolso, assumir todos os riscos", diz Guilherme Brauner Barcellos, presidente da Sociedade Brasileira de Medicina Hospitalar e um dos organizadores do evento.
O médico do título sou eu! Nas próximas postagens, abordarei preferencialmente este assunto. Desde já, quero registrar que pretendo desfazer a impressão causada pela minha frase acima. Colocada um pouco fora do contexto no qual a falei, deixa o entendimento de que eventos dessa natureza são inviáveis, e buscarei comprovar justamente o contrário.

Já nos primeiros contatos que sinalizavam a possibilidade da Folha enviar jornalista, deixei claro que deveria o jornal custear as despesas de sua equipe em Florianópolis, e assim ocorreu. 
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