Sobre Medicina Hospitalar, hospitalistas, qualidade assistencial, segurança do paciente, erro médico, conflitos de interesses, educação médica e outros assuntos envolvendo saúde, política e cotidiano.
segunda-feira, 13 de julho de 2026
segunda-feira, 29 de junho de 2026
O país do “cada um por si” que entendeu melhor o trabalho em equipe
Mas há um paradoxo interessante quando olhamos para dentro dos hospitais. Pelo menos na experiência hospitalar, os norte-americanos parecem ter aprendido algo que nós, no Brasil, ainda resistimos a aprender: não se trabalha sozinho em hospitais. A colaboração entre profissionais, o trabalho em equipe e até mesmo a aprendizagem entre instituições, concorrentes até, estão muito mais incorporados ao funcionamento cotidiano deles.
Isso ficou evidente para mim nas duas edições mais recentes dos encontros anuais da Society of Hospital Medicine. Quando hospitalistas foram destacados, na maioria das vezes havia uma verdadeira legião de colegas do seu programa ali para valorizá-los. O pessoal da Cleveland agiu com tanto entusiasmo que, se foi fabricado, revela enorme talento. Quando um hospitalista foi reconhecido por um projeto, levou todos que contribuíram ao palco para receber o prêmio e os aplausos. Não bastasse, nos EUA, os próprios hospitais colaboram muito e bem entre si. Só olhar para o Michigan Hospital Medicine Safety Consortium, que reúne organizações e profissionais em uma parceria orientada por dados para reduzir danos preveníveis, ou para a High Value Practice Academic Alliance.
Mesmo aqueles médicos que atuam lá em uma única instituição parecem compreender que se proteger demais pode ser uma armadilha, especialmente quando isso é interpretado como comportamento pouco parceiro ou pouco colaborativo. Médicos, profissionais de saúde e lideranças passam, com frequência, por diferentes instituições ao longo da carreira — muitas vezes mudando de cidade ou até de estado. Quando circular é normal, a instituição anterior não deve virar inimiga. O outro hospital não deve ser tratado como ameaça. Estabelecem-se competições mais contidas. O subordinado de hoje pode, amanhã, virar chefe na instituição ao lado.
No Brasil, ainda convivemos com algo próximo do extremo oposto. Mesmo havendo multiemprego, ficamos bastante presos aos mesmos lugares. E nos agarramos a eles como dá: seja pela estabilidade oferecida por algumas instituições públicas, seja com unhas e dentes em certos arranjos da saúde suplementar. A instituição e os serviços deixam de ser apenas um espaço de trabalho e viram território.
Por vezes as trocas até ocorrem: situações pontuais que ameaçam o poder instituído ou são muito extremamente por si mesmas. Ou quando muda um diretor/coordenador médico ou um chefe de serviço e quem chega — geralmente em meio a alguma crise — leva os seus, todos os seus. Como regra internamente, no entanto, há sempre uma atuação em conjunto para preservação dos status quo – pactos que, em alguns casos, geram verdadeiras capitanias hereditárias ou lembram facções em equilíbrio local.
Com isso, as relações internas no Brasil passam a depender menos de um projeto assistencial comum e mais de lealdade, proteção e controle de espaço. Quem está dentro precisa auto-preservar o conjunto; quem está fora passa a ser visto como inimigo. Mas não pensem que isso gera um conjunto interno sólido ou estável. Muito pelo contrário... Não há confiança; no máximo, obediência...
E o resultado é que, por aqui, falamos tanto em sistema e em equipes, mas agimos tão pouco como tal. Criamos fronteiras emocionais entre hospitais, sem fortalecer, de verdade, nada muito útil internamente. Criamos relações disfuncionais em todos os cenários e e em todos os níveis — justamente entre pessoas que deveriam estar resolvendo os mesmos problemas, com foco nos pacientes que cuidam ou na organização de sistemas de saúde para as comunidades onde convivem. Em vez de circulação de ideias, temos defesa de feudos. Em vez de colaboração, suspeita. Em vez de aprender com quem faz melhor, preferimos desqualificar quem está do outro lado da trincheira.
A ironia é que o país visto como individualista talvez tenha entendido melhor, dentro dos hospitais, que bons sistemas dependem de pessoas em comunhão — ainda que, por vezes, uma comunhão fabricada, treinada ou sistemicamente induzida. E nós, que gostamos tanto de falar em coletividade e calor latino, ainda toleramos hospitais organizados como clubes fechados, com donos simbólicos, hierarquias grotescas e fronteiras que protegem mais os grupos e fragilizam diversos mecanismos de proteção aos pacientes, dependentes de atmosfera oposta.
segunda-feira, 28 de julho de 2025
Os estudantes não serão o futuro da Clínica Médica!
O problema desse novo caminho é que, ao menos por um tempo, pode tornar nossos eventos menores — o que contraria interesses, entre tantos em jogo.
sexta-feira, 25 de julho de 2025
A exigência de qualquer RQE como pré-requisito para participação em processos seletivos de Residência Médica vai ser necessariamente ruim para a Clínica Médica?
Parece-me um retrocesso para a qualidade das especialidades focais — inclusive comentei isso ali nos próprios comentários.
Além disso, vale lembrar: essa medida do CFM não inaugura um problema para a Clínica Médica. Seus postos já vinham sendo ocupados, há tempos, também por profissionais sem treinamento em serviço na área.
sexta-feira, 2 de maio de 2025
terça-feira, 1 de abril de 2025
TBT de fase altamente produtiva para a MH brasileira
15 anos disso!!!
sexta-feira, 14 de março de 2025
quarta-feira, 26 de fevereiro de 2025
terça-feira, 19 de novembro de 2024
Em entidade que criei (e já tenho quase vergonha de ter criado), desenvolveram um selo de qualidade e deram pioneiramente para o hospital do próprio diretor. Tomara que tenha entendido mal. Ou tanto faz também, uma vez que já estou em projetos em que pensam e atuam diferente.
Segue abaixo a proposta que recebemos e a resposta de um dos coordenadores adjuntos da CWB. Ele sequer precisou me consultar, pois já temos um norte claro e critérios bem definidos sobre os cenários em que dispensamos prestígio ou dinheiro:
Proposta recebida:
"Nossa empresa forneceria o curso para todos os médicos interessados, aplicaríamos uma prova e analisaríamos dados para verificar se os médicos estão alinhados com a filosofia do Choosing Wisely. Esses médicos receberiam um selo, e, com isso, venderíamos esse serviço de várias formas, em parceria com vocês."Resposta:
"Obrigado pelas palavras. Reconheço sua boa intenção, mas infelizmente a proposta não se alinha à nossa visão. O Choosing Wisely Brasil não apoia a criação de ‘selos de qualidade’. Tenho dúvidas se um curso, seguido de prova e certificação de ‘sabedoria’, seria o caminho mais apropriado. Acredito que o foco deve ser uma mudança cultural progressiva, sistêmica e coletiva. Fico à disposição para conversarmos melhor."
Esse episódio do selo deles, no entanto, apenas ilustra movimentos que foram cíclicos ao longo desse já longo movimento. Nunca esqueço de uma gestão bem anterior em que um membro da diretoria realizou evento no seu hospital, de São Paulo, deflagrando uma série de tentativas de alçar a instituição como "the grande destaque nacional". Curiosamente, sequer havia hospitalistas naquele local — apenas um TRR, tratado quase como "móveis e utensílios".
Já em 2011, escrevi aqui no blog sobre a importância de "se necessário, destacar o trabalho do vizinho, em vez do nosso." É um exercício difícil, sem dúvida. Agora, pergunto-me: qual é, afinal, a diferença desse programa especialmente diferenciado para tantas outras boas iniciativas de MH espalhadas pelo Brasil? Talvez apenas o fato de serem "amigos dos reis", ou a própria corte.
segunda-feira, 11 de novembro de 2024
O que está por trás desse desfile de marcas, antes acusadas de aumentar custos através de influência em médicos, com a Abramge?
sexta-feira, 19 de julho de 2024
Jovens hospitalistas em seu apogeu técnico-científico também têm muito o que aprender com a velha guarda das enfermarias...
Recentemente fiquei sabendo que meu atual hospital está começando uma iniciativa de avaliação dos médicos preceptores pelos residentes. Muitos anos atrás eu já estimulava avaliação por pares em programas de MH que coordenei ou colaborei como consultor, com a particularidade, acredito que ainda pouco comum, de instigar avaliação dos hospitalistas pela equipe multidisciplinar.
À esquerda, avaliação de um hospitalista. À direita, do corpo clínico tradicional, composto por médicos antigos na instituição e que apresentavam altas taxas de permanência hospitalar, entre outros resultados problemáticos.
segunda-feira, 15 de julho de 2024
Três dias no hospital, três médicos diferentes
- Resultados Melhores: Pesquisas de Meltzer sugerem que a continuidade do cuidado pode levar a uma redução nas readmissões hospitalares, melhor adesão ao tratamento e maior satisfação do paciente. Ele aponta que médicos que conhecem bem seus pacientes estão em melhor posição para tomar decisões informadas e personalizadas.
- Eficiência e Custo: Meltzer também destaca que a continuidade do cuidado pode ser mais eficiente e economicamente vantajosa. Ao reduzir a duplicação de exames e procedimentos desnecessários, pode-se diminuir os custos hospitalares. Além disso, a melhora nos desfechos clínicos pode levar a menos complicações e, consequentemente, menos despesas com tratamentos de emergência.
- Modelos de Assistência: Meltzer inclusive estuda atualmente um modelo em que o clínico volta a ter atuação dentro e fora do hospital. No entanto, diferente da experiência que vivenciei, é organizado para garantir horizontalidade no cuidado hospitalar.
“Continuidade NAS equipes é tão importante
quanto continuidade DAS equipes”.
Leituras complementares:
Qual a melhor escala para distribuição de hospitalistas?
Se você é um paciente, fuja de enfermarias onde há um médico diferente a cada dia.
terça-feira, 9 de julho de 2024
domingo, 30 de junho de 2024
Breves comentários sobre recente parecer a respeito de hospitalista, resposta por um CRM brasileiro:
1. Insistem (interessado e parecerista) na tese do intercorrentista e outras formas de atuações indiretas. Citam Robert Wachter e outros pensadores do modelo. Mas é assim que explica o próprio Wachter:
2. Há, no documento, uma ampla discussão sobre autonomia e ética, porém essa questão deveria ser menos controversa, considerando que tanto a Society of Hospital Medicine (SHM) quanto o American College of Physicians (ACP) demonstram claramente que, pelo menos, não é necessário violar nenhum dos princípios mencionados para estabelecer um programa de MH eficaz e funcional, posicionando-se claramente contra o encaminhamento mandatório para hospitalistas:
3. Eu acredito que deveria ter sido citado. Há coisas pelo menos muito parecidas em textos prévios de minha autoria, como:
4. O parecerista está certo em tentar caracterizar com evidências que a MH não é uma panaceia. Acreditei no contrário apenas quando nos primórdios do movimento e da empolgação. O fato é que ainda não descobrimos nenhuma panaceia em melhoria da qualidade assistencial hospitalar - não são hospitalistas sem qualquer outra proposta isoladamente e com grande magnitude de efeito! No entanto, o mesmo parecerista peca em apontar apenas diferenças entre as realidades norte-americana e brasileira. Não precisamos dar conta, nos Brasil, das demandas abaixo?????
sexta-feira, 14 de junho de 2024
Padronização: Entre a Inegável Utilidade e a Complexidade
A proximidade entre parentes nem sempre garante uma estrutura familiar mais funcional. Da mesma forma, a relação entre padronização e qualidade na saúde possui suas complexidades. Embora a padronização seja ferramenta em busca por consistência e uniformidade, sua mera aplicação não assegura qualidade. Analogamente, a presença de um parente próximo não garante sua capacidade de oferecer apoio ou solucionar problemas. Isso ilustra bem sistemas complexos, onde, mesmo com todas as precauções, ainda há espaço par desfechos primários negativos ou consequências negativas terceiras não intencionais.
1. Integrantes da média gestão, ao revisarem nosso trabalho, identificaram que, em nossos modelos, alguns itens estavam em gramas, outros em miligramas. Em nome de “padronização”, solicitaram tudo em grama, ou tudo em miligramas.
A ideia parece boa, não fosse o fato de que os médicos e os enfermeiros muitas vezes estão familiarizados com determinadas posologias. Um médico prescrevendo, ou um enfermeiro no processo inicial de execução de uma prescrição médica, pensando ou processando a partir de informações com as quais estão acostumados, podem mais facilmente evitar determinados erros. Por sua vez, quando partimos de uma informação familiar e precisamos recalcular a dose para adequar-se a um formato padrão distinto, esse é um momento que se torna perigoso.
2. As doses em pediatria são muitas vezes calculadas por quilo de peso dos pacientes. Trabalhamos modelos de prescrição incorporando medicamentos constantes em rotinas ou protocolos revisados por lideranças, e os colocamos em doses mínimas, acrescentando, como suporte à decisão clínica, a informação da respectiva dose por quilo. O hospital, por sua vez, nos exigiu que evitássemos informações para o prescritor nos modelos, pois "podem acabar na prescrição final e causar problemas". E é justo e louvável que tenham essas preocupações. Concluíram lembrando-nos que “o foco deve estar no paciente", "devem, então, chegar como modelos que lembrem prescrições prontas”.
a. Serem finais, prontos para a Enfermagem?b. Servirem como uma forma de minimizar variações entre profissionais e ter uma prescrição final mais com "a cara do serviço", permitindo que seus componentes mais importantes estejam revisados pelas lideranças?
quinta-feira, 8 de fevereiro de 2024
sexta-feira, 1 de dezembro de 2023
segunda-feira, 27 de novembro de 2023
Cuidado para "abordagem multimodal" não acabar ajudando mais aos grupos profissionais do que aos pacientes.
2. O multimodal, entretanto, pode esconder maneiras perversas de acomodar interesses, servindo para apaziguar zonas de tensão que, pelos pacientes, devem existir; quando ignora que um dia do paciente tem 24hrs e que ainda deve acomodar uma boa parcela do tempo para sono de boa qualidade, cria um potencial problemão organizacional para a pessoa e sua rede de apoio.
terça-feira, 21 de novembro de 2023
No Brasil, gerentes ou coordenadores médicos de qualidade/segurança, quais sejam suas origens, ainda pecam em reconhecer qualidade e segurança. São vistos fazendo escalas, organizando férias, buscando substitutos para licenças saúde, liderando discussão sobre comprar um aparelho de VMNI ou um de ecografia, e outras tantas coisas do gênero, algumas delas feitas por assistentes administrativos lá.
















