segunda-feira, 29 de junho de 2026

O país do “cada um por si” que entendeu melhor o trabalho em equipe

Os Estados Unidos carregam a pecha do individualismo. E não sem alguma razão: convivem mesmo com uma cultura fortemente marcada pela autonomia e pela liberdade individual.

Mas há um paradoxo interessante quando olhamos para dentro dos hospitais. Pelo menos na experiência hospitalar, os norte-americanos parecem ter aprendido algo que nós, no Brasil, ainda resistimos a aprender: não se trabalha sozinho em hospitais. A colaboração entre profissionais, o trabalho em equipe e até mesmo a aprendizagem entre instituições estão muito mais incorporados ao funcionamento cotidiano deles.

Isso ficou evidente para mim nas duas edições mais recentes dos encontros anuais da Society of Hospital Medicine. Quando hospitalistas foram destacados, na maioria das vezes havia uma verdadeira legião de colegas do seu programa ali para valorizá-los. O pessoal da Cleveland agiu com tanto entusiasmo que, se foi fabricado, revela enorme talento. Quando um hospitalista foi reconhecido por um projeto, levou todos que contribuíram ao palco para receber o prêmio e os aplausos. Não bastasse, nos EUA, os próprios hospitais colaboram muito e bem entre si. Só olhar para o Michigan Hospital Medicine Safety Consortium, que reúne organizações e profissionais em uma parceria orientada por dados para reduzir danos preveníveis, ou para a High Value Practice Academic Alliance.

Minha tese aqui é que isso tem relação com algo que altera muito a dinâmica das relações e das competições; algo que não acontece por aqui. Nos EUA, é mais normal “circular”!

Mesmo aqueles médicos que atuam lá em uma única instituição parecem compreender que se proteger demais pode ser uma armadilha, especialmente quando isso é interpretado como comportamento pouco parceiro ou pouco colaborativo. Médicos, profissionais de saúde e lideranças passam, com frequência, por diferentes instituições ao longo da carreira — muitas vezes mudando de cidade ou até de estado. Quando circular é normal, a instituição anterior não deve virar inimiga. O outro hospital não deve ser tratado como ameaça. Estabelecem-se competições mais contidas. O subordinado de hoje pode, amanhã, virar chefe na instituição ao lado.

No Brasil, ainda convivemos com algo próximo do extremo oposto. Mesmo havendo multiemprego, ficamos bastante presos aos mesmos lugares. E nos agarramos a eles como dá: seja pela estabilidade oferecida por algumas instituições públicas, seja com unhas e dentes em certos arranjos da saúde suplementar. A instituição e os serviços deixam de ser apenas um espaço de trabalho e viram território.

Por vezes as trocas até ocorrem: situações pontuais que ameaçam o poder instituído ou são muito extremamente por si mesmas. Ou quando muda um diretor/coordenador médico ou um chefe de serviço e quem chega — geralmente em meio a alguma crise — leva os seus, todos os seus. Como regra internamente, no entanto, há sempre uma atuação em conjunto para preservação dos status quo – pactos que, em alguns casos, geram verdadeiras capitanias hereditárias ou lembram facções em equilíbrio local.

Com isso, as relações internas no Brasil passam a depender menos de um projeto assistencial comum e mais de lealdade, proteção e controle de espaço. Quem está dentro precisa auto-preservar o conjunto; quem está fora passa a ser visto como inimigo. Mas não pensem que isso gera um conjunto interno sólido ou estável. Muito pelo contrário... Não há confiança; no máximo, obediência...

E o resultado é que, por aqui, falamos tanto em sistema e em equipes, mas agimos tão pouco como tal. Criamos fronteiras emocionais entre hospitais, sem fortalecer, de verdade, nada muito útil internamente. Criamos relações disfuncionais em todos os cenários e e em todos os níveis — justamente entre pessoas que deveriam estar resolvendo os mesmos problemas, com foco nos pacientes que cuidam ou na organização de sistemas de saúde para as comunidades onde convivem. Em vez de circulação de ideias, temos defesa de feudos. Em vez de colaboração, suspeita. Em vez de aprender com quem faz melhor, preferimos desqualificar quem está do outro lado da trincheira.

A ironia é que o país visto como individualista talvez tenha entendido melhor, dentro dos hospitais, que bons sistemas dependem de pessoas em comunhão — ainda que, por vezes, uma comunhão fabricada, treinada ou sistemicamente induzida. E nós, que gostamos tanto de falar em coletividade e calor latino, ainda toleramos hospitais organizados como clubes fechados, com donos simbólicos, hierarquias grotescas e fronteiras que protegem mais os grupos e fragilizam diversos mecanismos de proteção aos pacientes, dependentes de atmosfera oposta.

E isso tudo ainda acaba se refletindo na forma como nos organizamos em sociedades médicas. Quando conto a amigos norte-americanos que, no Brasil, algumas delas têm diretorias praticamente vitalícias — ou mesmo donos —, eles desconfiam que isso possa ser verdade. Quando conto a amigos brasileiros que percebo a SHM como uma sociedade altamente colaborativa, com alternância real de poder e de lugares de fala, em respeito às produções, trajetórias e momentos de cada um, acho que uma minoria consegue entender. Até mesmo entender...

segunda-feira, 28 de julho de 2025

Os estudantes não serão o futuro da Clínica Médica!

Gerações de lideranças da Clínica Médica (ou Medicina Interna) acreditaram — e muitas ainda acreditam — que investir em estudantes seria um caminho profícuo para transformar a especialidade. Há bastante tempo, penso diferente. Mas entendo esse entusiasmo: quando estive na SBCM/RS e, em 2005, realizamos um congresso enorme em Gramado — impulsionado por uma mobilização massiva de estudantes —, também acreditei na "revolução". A verdade é que isso nos energiza, o que também é uma métrica relevante. No entanto, para transformar de fato a Clínica Médica, talvez o foco devesse estar no aprimoramento profissional de quem já atua na linha de frente — além de esforços consistentes em novos modelos assistenciais, advocacy e políticas públicas.

O problema desse novo caminho é que, ao menos por um tempo, pode tornar nossos eventos menores — o que contraria interesses, entre tantos em jogo.

Esse raciocínio também se aplica à Medicina Hospitalar. A Society of Hospital Medicine (SHM) é um bom exemplo de como um movimento de hospitalistas pode crescer de forma orgânica — feito por hospitalistas, para hospitalistas. Estudantes participam dos eventos, sim, mas em menor escala. O mesmo vale para enfermeiros e gestores. Ainda assim, os encontros da SHM têm como núcleo médicos internistas hospitalares, com poucos palestrantes de especialidades focais inclusive.

sexta-feira, 25 de julho de 2025

A exigência de qualquer RQE como pré-requisito para participação em processos seletivos de Residência Médica vai ser necessariamente ruim para a Clínica Médica?

CFM deflagrou recentemente discussões interessantes a partir disto:

 


Parece-me um retrocesso para a qualidade das especialidades focais — inclusive comentei isso ali nos próprios comentários.

Mas, ao contrário do que muitos afirmaram, não acho que essa medida vá “acabar com a Clínica Médica”.

É verdade que quem não tem real interesse na área poderá optar por um atalho, evitando o treinamento sem serviço. Mas será que isso, no fim das contas, é mesmo ruim para a Clínica Médica? Talvez o que precisemos, justamente, seja o oposto: atrair quem demonstra ao menos alguma curiosidade pela especialidade, quem se vê nela de alguma forma — e não apenas quem está ali por obrigação. Pode até reforçar a identidade da Clínica Médica e tornar sua força de trabalho mais alinhada com sua proposta, caso outras ações sejam deflagradas em paralelo.

Em diversos países, adota-se um modelo de tronco comum para as especialidades clínicas, com uma divisão posterior entre Medicina Interna e as demais áreas focais. Quem obtém o título de uma, não leva o das outras — a não ser que percorra ambos os caminhos de forma deliberada. Isso parte da ideia de que Clínica Médica ou Medicina Interna são, sim, uma carreira própria — com todos os desafios que isso traz, em termos de atratividade e preenchimento das vagas de residência. Mas faz sentido separar perfis: há quem tenha vocação generalista e habilidades de coordenação, e há quem seja moldado para atuar exclusivamente na rebimboca da parafuseta. Já discutimos isso aqui e, especialmente, aqui.

Além disso, vale lembrar: essa medida do CFM não inaugura um problema para a Clínica Médica. Seus postos já vinham sendo ocupados, há tempos, também por profissionais sem treinamento em serviço na área. 

Leituras complementares: 

terça-feira, 1 de abril de 2025

TBT de fase altamente produtiva para a MH brasileira

 15 anos disso!!!






Nunca havia compartilhado antes — não por falta de importância, mas porque raramente faço esse tipo de registro. Prefiro outras formas de presença nas redes sociais.

Resolvi fazer agora, não tanto pelo 'aniversário de 15 anos', mas porque percebo, com o tempo, que poucos fizeram algo parecido. Não me refiro à apresentação lá em Rochester em si, mas ao que levou ela a acontecer.

O tema agora já foi apropriado por muitos — o que é ótimo. Mas aquele esforço inicial de promover o movimento hospitalista brasileiro exigiu um grau de envolvimento atípico, em época em que a questão não era negócio no Brasil. E simplesmente foi feito. Sem repetição. Talvez porque pioneirismo, por definição, não se repete. Talvez porque exigia um tipo de esforço pessoal e investimento em recursos que, por um bom tempo, só eu estive disposto a fazer. Por isso tantos frutos colhidos, além de oportunidades de negócio. 

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