terça-feira, 1 de outubro de 2019

Fujamos da tentação de tornar qualidade hospitalar uma profecia autorrealizável!

Antes de testes mais robustos, especialistas em qualidade dizem: “não é ciência tradicional, precisamos de fluidez”. Quando um teste destes leva menos de 24hrs, é burocracia ou uma espécie de conforto mental que nos faz gritar: “Páre! Até aqui está bom!”???
Link para Saúde Business
A pressa e o excesso de informações e de ações prejudicam a relação ruído-sinal nos hospitais. Os ruídos são aquilo que deveríamos ignorar; os sinais são aquilo no que é preciso focar, cabendo ainda hierarquização entre eles. Na prática atual, somos levados a abordar tudo como iguais e praticamente juntos. Gastamos tempo e energia demais com acontecimentos raros e sabe-se lá se verdadeiramente remediáveis. Além do que, a realidade hospitalar é muito mais labiríntica do que as vozes suaves e as lineares narrativas dos comuns solucionadores simplórios: “Risco de queda, pessoal! Inaceitáaaaavel! Levantemos cabeceiras e desestimulemos o vô e a vó a sair do leito. Se preciso, ajudamos com fraldas, sondas vesicais, contenções mecânicas, e oferecemos o banho no leito”. E o idoso não cai, mas o transformamos numa caricatura do que era até um pouco antes de hospitalizar, favorecendo ativamente declínios cognitivo e funcional…

sexta-feira, 6 de setembro de 2019

Textículo sobre O Futuro da Clínica Médica no Brasil teve alcance diferenciado!


Houve grande número de visualizações, comparando-se a outras postagens minhas. Não sei se tocou um número significativo de generalistas que venha a compor algum movimento melhor do que existente hoje. Somos poucos na luta que represento, e desarticulados ainda.

Na mesma noite da publicação, recebi convite para compor mesa com título homônimo, no 15o Congresso Brasileiro de Clínica Médica. Não está na programação do congresso, de acordo com o site oficial, até a postagem desse texto, o que me faz pensar que a ideia surgiu da minha provocação. Participaria da mesa ainda, conforme mensagem enviada, o presidente da SBCM, ACL.

Pensei, pensei, pensei... Convites assim sempre tocam os médicos e não foi diferente comigo... Pensei muito... Balancei algumas vezes - a vaidade que todos possuímos, em maior ou menor grau, reforçou o convite... Ao cabo, decidi declinar. E explico porquê:

Acredito que a SBCM é parte importante do problema! Não foi o caso de fugir do debate - amarelar, como se diz por aí. Mas interpretei que não era esse o tipo de posicionamento esperado por quem fez o honroso convite, na melhor das intenções. Um convite de alguém para que eu visitasse sua própria casa, representada pela regional de organiza o evento, além da própria SBCM. Então, eu não faria nenhuma supresa, por educação e respeito. Ao mesmo tempo, não seria eu mesmo se não aprofundasse todos os elementos que entendo como mais relevantes para a crise da especialidade no Brasil.

No meu texto original, uma das questões principais que tentei trazer refere-se a total indefinição entre o papel das especialidades clínicas no Brasil (em outras palavras, falta de organização sistêmica, de hierarquização do trabalho médico, de um modelo de assistência). Ocorre diferente em vários países cujos indicadores de saúde são melhores que os nossos! Aí olhamos para nosso representante maior na Clínica Médica e...


não sabemos se

é generalista 

ou cardiologista! 😏




O problema é que minha colocação remete a um viés de confirmação reverso. ACL provavelmente for muito bom nas duas frentes, e segue defendendo-se bem no mercado dessa forma. Possui uma mente brilhante! Conversando com amigo "clínico geral" e bastante destacado também, ele justificou que faz, e bem, Clínica Médica Ambulatorial e Hospitalar - como contraponto ao "meu hospitalista" e ao isso ou aquilo como foco principal. Vejo como absolutamente humano nos vermos assim, mas a soma de nossas auto-imagens não pode contrariar fatos. Então aproveitei para dar uma quebrada no assunto, e dizer que tinha dúvidas sobre algumas questões que envolviam a saúde dos meus pais. Perguntei sobre vacinações necessárias como idosos que são, além de aconselhamento genético e recomendações como futuros viajantes internacionais. E ficou evidente que não tinha na ponta da língua. É verdade também que é possível estudar entre as consultas, mas será que dá para apostar nisso para o varejo, da forma como estamos cada vez mais e mais ocupados, bombardeados por um mar de informação que só aumenta?

Eis que o colega perguntou-me: "Mas você faz clínica médica, intensivismo e qualidade/segurança...". Humildemente reconheço que os anos de dedicação à Medicina Hospitalista tornaram-me um intensivista menor do que meu potencial permitiria. A meu favor, e trabalhando como intensivista em local sempre cercado de muita gente capacitadíssima, destaco o fato de não apresentar dificuldades em pedir ajuda. Ajuda que sequer existe à disposição em tantos outros cenários.

Portugal, no SNS, organizou-se diferente na assistência generalista ambulatorial e hospitalar. Internistas estão nos hospitais. Médicos da família nos ambulatórios. A relação é de parceria, e estão juntos nos congressos uns dos outros. Há áreas de intersecções, como através de consultoria, presencial ou à distância - cruzam fronteiras, mas com foco no paciente, não em ganhos por produção. Será que não chegou a hora de chamarmos os médicos de família brasileiros para uma parceria estratégica?

Vou mais longe, penso estar indicada uma aproximação entre especialidades generalistas em geral, como MFC e Geriatria. Nos hospitais, com as outras duas que definem-se por território, não órgão ou sistema. São elas Medicina Intensiva e Medicina de Emergência. Precisamos parar de competir com elas e elas conosco. Vejo possibilidades concretas de ganhos para todos nós. Há que se consolidar intensivistas, emergencistas e internistas hospitalares como a espinha dorsal dos hospitais brasileiros, com os especialistas focais na função de pareceristas importantes. Devemos nos juntar para convencer os convênios. Devemos juntos revisar RDC's e incorporar os internistas às unidades intermediárias (quem sabe com um treinamento oferecido pela AMIB), quem sabe às próprias UTI's nas noites, com mecanismos de retaguarda amparados por intensivistas titulados. E juntos costurar parcerias estratégicas também com as especialidades focais.

A complexidade de vida e da medicina moderna traz naturalmente a necessidade de conexões entre domínios.
A partir de agora, nenhuma chave-mestra sozinha abrirá todas as portas.
A Clínica Médica, para sobreviver e prosperar, precisará aprender a interagir, a construir pontes!
Em paralelo, deve convencer as fontes pagadoras do seu lugar no sistema.


Por fim, precisa a SBCM comprar a ideia de "Making Room for a New Generation of Medical Learders". É tudo que não fez nos últimos anos!!! Precisamos também repensar o evento bianual para que reúna progressivamente mais clínicos ativos e menos estudantes, que sequer fidelizamos a partir dos evento em si.

sexta-feira, 30 de agosto de 2019

O Futuro da Clínica Médica no Brasil

Fiquei bastante faceiro essa semana por ter sido convidado para atividade na universidade em que me formei:

Tenho viajado bastante abordando os temas. Estive longe como em Las Vegas,  Portugal (detalhes aqui e aqui), e Washington. Tenho sido testemunha ocular privilegiada de várias iniciativas no Brasil e já possuo meu próprio case, aqui parcialmente apresentado. Sinto falta, entretanto, de penetrar melhor em alguns lugares e mentes. E gostei muito de estar com os alunos da UFRGS... 

Usei dos "hospitalistas" para tentar provocar reflexões nos estudantes da Liga de Medicina Interna local (Clínica Médica, pela AMB/CNRM). Qual o futuro da Clínica Médica no Brasil? Como podemos colaborar para que a especialidade conquiste maior importância e nos traga mais orgulho?

Já havia discutido isso aqui: Existe luz no fim do túnel para o médico generalista? Na FAMED/UFRGS, dei ênfase a algumas questões:

➽ O Internista estilo 'solitário diagnosticador de bruxarias' entrará em extinção e, se nele a Clínica Médica continuar ancorada, a crise da especialidade só piorará.

Ainda existem velhos sábios internistas com essas características e aqueles que mantêm mercado inclusive. Ocorre que estreitou para a geração atual de jovens clínicos e pouco existirá para as próximas. E o fato de um bom número ainda estar bem na carreira e de que chegará à aposentadoria sem sentir a crise na própria pele compromete e atrasa reflexões sobre o futuro dos outros.

O hospital do futuro quer o internista (preferencialmente hospitalista) para fazer bem o "feijão com arroz" do cuidado clínico hospitalar, e sem muito médico pendurado no caso (o que gera contundente vetor contrário à eficiência). Por sua vez, espera que nos casos difíceis e complexos o tal trabalho médico em equipe surja. O 'solitário diagnosticador de bruxarias' gosta de correr riscos sozinhos, buscando diagnósticos e resultados heróicos para o seu paciente (até porque comunicação e trabalho em equipe não estão entre suas melhores características). Entretanto, o hospital moderno quer, nesses casos em especial, compartilhamento de riscos, evidências de que houve soma de habilidades e competências na busca pelo melhor desfecho. Não quer "deixar o seu na reta"...


➽ O Internista "feijão com arroz" deve assimilar que fará o simples, mas não confundir simples com simplório. Vejo inúmeras situações nos hospitais em que o "feijão com arroz" é mal feito, faltando temperos pelo menos. E o internista do futuro deverá tornar-se um verdadeiro especialista no típico prato...


➽ Então o Internista que não gosta do "feijão com arroz" deve refletir fortemente sobre a possibilidade de possuir mindset de especialista focal. E quem sabe vá ser feliz fazendo alguma subespecialidade...


➽ Os centros formadores de internistas do futuro deverão incorporar novas habilidades e competências nos currículos. E, independente disto, não será com não generalistas como professores e/ou preceptores que fortalecerão a cultura necessária. Não dá mais para fazer eletroneuromiografia 80% do tempo e ser o formador do futuro internista no pouco tempo restante...

É comum o perfil com mente de especialista focal ou do estilo 'solitário diagnosticador de bruxarias' não entender o porquê do "velho com perda cognitiva e funcional, sem grandes perspectivas, com escaras até, internar para a Medicina Interna". Por quê????? Porque é óbvio que o neurologista não é o profissional ideal para assumir casos assim. E idosos com limitações também merecem o melhor cuidado possível dentro de suas realidades. O hospitalista, então, deve ser especialista em dor, em sintomas, em prevenção e tratamento delirium, em evitar iatrogenias, em quem sabe devolver o idoso para a comunidade minimizando ao máximo perdas cognitivas ou funcionais adicionais, em quem sabe garantir uma morte digna....


➽ O 'internista diagnosticador e consertador faminto' percebe a internação hospitalar como um espaço cômodo para "fazer tudo". Sem enxergar que a principal causa de uma sala de emergência lotada é uma enfermaria que não gira. Enxergam as infecções nosocomiais como mal necessário. Na busca por um compromisso social efetivo nas suas ações, precisaremos necessariamente entender o momento de fazer as coisas, e dividir o trabalho com outros ambientes de cuidado e seus profissionais.


➽ Para auxiliar na modelagem de um sistema como o que estou estimulando, Portugal impede o registro de múltiplas especialidades. Ou você é internista. Ou é cardiologista. Ao menos em período específico. Nos EUA, não possuem esse tipo de regulação, mas, na prática, ajustaram-se igual. Tanto Portugal como EUA abraçaram o internista como o 'coordenador do cuidado no hospital'. No Brasil, nos falta ainda até mesmo uma distinção melhor de quem é quem, de quem faz o que. Não é incomum aqui encontrar um arritmologista certificado atuando como tal nas quartas-feitas, enquanto nas segundas é um plantonista em Emergência (PS, como dizem os paulistas), nas quintas é um plantonista de TRR, e nas noites e finais de semana por vezes atua em UTI's para complementar a renda. Alguém realmente acha que estamos perante um ótimo arritmologista, um ótimo emergencista, um ótimo intercorrentista e um ótimo intensivista???????? É esse o sistema que queremos para tratar nossos familiares, por mais que muitas vezes seja conveniente para nós médicos? Percebam que nem citei o "ótimo internista". Porque no exemplo ele nem existe, mesmo que o arritmologista tenha feito necessariamente Medicina Interna (Clínica Médica) como ré-requisito.

“Insanidade é continuar fazendo sempre a mesma coisa e esperar resultados diferentes

terça-feira, 23 de julho de 2019

A judicialização pode quebrar o sistema!

Chamou-me a atenção conteúdo divulgado em rede social:


Principalmente por envolver o SUS, que em tanto risco está, fui curioso buscar informações sobre a questão...

NENHUM ESTUDO COMPARATIVO!

Busca adicional encontrou publicação de protocolo de um Ensaio Clínico Randomizado, ainda com resultados pendentes.  

A judicialização, dessa forma e se minha avaliação rápida não tiver deixado passar evidências de boa qualidade, pode quebrar o sistema!

Interessante notar os comentários na rede social. Advogados e médicos defendem que Estado e Planos de Saúde não podem prevalecer sobre autonomia médica. Quando falam em autonomia médica, referem-se ao conhecimento técnico. Entretanto, deveríamos falar de autonomia médica ou evidência científica?

O discurso em prol da autonomia médica gera evidente alinhamento entre os advogados e médicos, uma aliança obviamente bem vinda no contexto de operadores do direito que defendem médicos. Mas como fica a questão se colocado o foco primordialmente nos pacientes e no sistema que os ampara???

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