sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Mais médicos generalistas. Mais saúde para todos.

por Ricardo Ayache, médico

Os debates sobre a saúde brasileira intensificaram-se nos últimos meses. Todos os meios de comunicação têm, exaustivamente, colocado a disposição da população números, opiniões e estudos na tentativa de encontrar explicações e, até mesmo, soluções para os problemas, cada vez mais evidentes do nosso sistema de saúde, seja público ou suplementar.

Fontes de financiamento insuficientes, gastos assistenciais galopantes, má distribuição de médicos pelo país, ausência de um plano de carreira para os profissionais da saúde, estruturas de atendimento deficitárias, judicialização do setor e excesso de regulamentação, são alguns dos problemas mais evidentes.

Será de grande valia focarmos nos debates para questões estruturais como a formação médica. A maioria absoluta das escolas de Medicina do Brasil é alicerçada no modelo flexneriano, que data de 1910. Voltado para a formação de superespecialistas, centrado nas doenças, nos hospitais e na incorporação acrítica de novas tecnologias, trouxe grande contribuição para a evolução da Medicina ao sistematizar o ensino médico dentro de preceitos científicos, mas, paradoxalmente, afastou os médicos da abordagem preventiva, psicossocial e econômica da saúde, e de uma compreensão mais holística do homem, essenciais para o exercício da Medicina, também, como arte. Este modelo contribuiu, ainda, para a concentração dos médicos nas grandes cidades.

Outro aspecto que precisa de abordagem profunda é a crescente influência das indústrias farmacêuticas e de equipamentos na prática médica. Se por um lado promovem melhores tratamentos e aumentam a expectativa de vida da população, por outro, induzem profissionais e pacientes ao consumo de medicamentos e exames, nem sempre necessários, para alimentar um mercado mundial que movimenta mais de US$ 210 bilhões/ano. Uma verdadeira mercantilização da vida que tem levado à expansão dos gastos com a saúde da população a níveis preocupantes, muito acima do crescimento econômico mundial. Equalizar essas situações é um dos grandes desafios das políticas públicas atualmente.

O Brasil é um dos países com maior número de tomógrafos, ultrassons e ressonâncias do mundo, onde cerca de 70% dos exames são praticamente desnecessários, movimentando mais de US$ 3 bilhões/ano.

São inúmeros os estudos que demonstram risco iminente de colapso na saúde, em países que adotam esse modelo assistencial, que, além de ser insustentável economicamente, trouxe um desgaste sem precedentes na relação médico-paciente. Assim, acreditamos num modelo assistencial voltado para uma visão mais humanista da saúde, focada na formação de mais médicos generalistas; em ações voltadas para a prevenção e a promoção da saúde; em políticas públicas capazes de fixar os médicos no interior do Brasil e que destinem maior orçamento para o setor; e no uso racional de novas tecnologias e terapias em prol da vida e não como mecanismos de incremento das desigualdades.

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Humanização é com o Mundo Animal!

Quando fiz este texto e publiquei no Facebook, em recente madrugada, não tive pretensão de nenhuma grande análise – apenas quis dizer que nosso sistema de saúde está uma porcaria, uma m... (o público, e acrescento agora o de planos de saúde) . E que é simplória a tese de que Mais Médicos é solução.

"Os médicos têm razão em quase tudo que envolve suas críticas ao Programa Mais Médicos. Erramos ao não abordar melhor ao longo da história recente alguns problemas, principalmente aqueles difíceis de diferenciar entre problemas do sistema e má vontade dos profissionais que nele atuam. Demandaria tempo com explicações [do óbvio aparente] e algumas atitudes que, por não serem isentas de riscos, estamos adiando demais como corporação. Os usuários do SUS e outros eleitores não enxergam o todo. E os médicos ficam irritados com eles, o que só tem piorado a atual situação. O momento é complexo e estamos perdendo a briga. A culpa do caos na saúde pública é nossa. O Governo aponta com solução e humanização.

Encontro-me aguardando cirurgia da minha cadela Mel. Chegando ao hospital veterinário, foi atendida em menos de 10 minutos. Em 30 minutos, tinha a ecografia abdominal laudada e o diagnóstico confirmado. O tempo até a primeira dose do analgésico e depois do antibiótico foi impressionantemente ágil. Padilha utiliza-se de um discurso cheio de verdades, fala em mais atenção e menos exames, mas distorce a realidade dando a entender que mais coisa é supérflua do que realmente é. Para quem não é profissional da saúde entender, uma ecografia deve ser vista em algumas situações, tanto na atenção básica quanto em urgências, como extensão ideal do tradicional exame físico. Padilha quer fazer acreditar que com boa vontade, basta Mais Médicos. E tem tido resultado!

Em longos anos trabalhando no Hospital Conceição, modelo para o Ministério da Saúde, e de onde saí porque literalmente enchi o saco, poucas vezes vi algo parecido com o que presenciei no hospital veterinário. Qualquer primeiro atendimento costuma demorar mais (embora falem em ‘acolhimento’); uma ecografia quando realizada em 24hs no Conceição era motivo para almoço festivo no Bourbon Country (mas adoram falar em ‘humanização’). O que dizer então das organizações de saúde menores do SUS? O que é acolhimento e humanização???

Nós médicos não nos damos conta que as pessoas leigas não percebem o óbvio ao discutir Saúde. Humanização no setor deveria se traduzir por mais eficiência (a mesma que encontrei no Mundo Animal) e menos discurso. Segurança do paciente, a nova onda do Governo, é ciência a ser aplicada em sistemas funcionando minimamente bem, com foco no erro humano e no que chamo de “erro do bem”. Pois no Mundo Animal percebi cenário interessante para aplicar cada capítulo do livro que recentemente ajudei a traduzir (Compreendendo a Segurança do Paciente, Artmed 2013). Diga-se de passagem, no hospital veterinário fui apresentado a consentimento informado do jeito que tem que ser. Primeiro fui informado bonitinho, depois assinei um termo. Processo funcionando melhor que em muito hospital com isenção fiscal pelo Governo, de parcerias público-privadas de efetividade questionável, e selos de qualidade por acreditadoras nacionais ou até internacionais.

O SUS talvez não precise se preocupar imediatamente com o livro sobre segurança do paciente. Eu diria que só depois de chegar no patamar do Mundo Animal. Seria algo como desumanizar para humanizar de verdade.

Fazendo o mínimo que tem que ser feito, importa pouco o resultado. Difícil é quanto falta o básico e ainda sobra demagogia. Capítulo do livro Compreendendo a segurança do paciente, como, por exemplo, Erros cirúrgicos, só faz sentido se negligência e desprezo não estiverem saltando aos olhos, sob a forma de "erros do mal" impostos por sistema capenga e responsáveis mequetrefes. Naqueles funcionando minimamente bem, aprendi estudando erro humano que é possível e existe o dever de melhorar, mas sequer incluo esta etapa na minha equação de satisfação do usuário, de forma que ao Mundo Animal, independente do resultado e da interposição de eventuais erros, já posso dizer “muito obrigado”.

Ao usuários do SUS, desejo sorte, variável que considero pouco importante, mas é o que estamos podendo oferecer."

Publicado, recebi resposta. Insinuando que terei portas fechadas em territórios de meu interesse com este tipo de crítica. Perco oportunidades, mas não abandono algo que considero precioso: capacidade de pensar, criticar. Se for necessário, mudo de opinião, mas omitir-se é covardia.

Quem pensa que o contraponto atacou questões como o fato de que a assistência veterinária que valorizei poderia ser facilmente comparada com o sistema de saúde norte-americano, onde para quem tem acesso/cobertura o resultado é bom, existindo, no entanto, milhões de “uninsured patients”, jogados a própria sorte, está enganado. Acabo de receber uma enorme resposta tentando dizer que o sistema que estou criticando está ficando uma maravilha, que nunca na história desde país..., tudo graças aos esforços do PT e da esquerda brasileira. E aí, meus caros, desisto seletivamente até mesmo de pensar. Não se converte ninguém já com pacto firmado para campanha eleitoral. Nossa única chance de melhorar seria através de visões mais críticas sobre justamente o que defendemos...

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Até 73% dos erros cometidos em hospitais no país são evitáveis

Até 73% dos erros que acontecem dentro de hospitais brasileiros, como medicações trocadas ou operação de membros errados, poderiam ser evitados. Informação é da Folha de São Paulo.

É o que apontam estudos da Fiocruz apresentados no QualiHosp (congresso de qualidade em serviços de saúde) e que ajudaram o Ministério da Saúde a criar novas normas de segurança hospitalar que passam a valer a partir de 2014.

As pesquisas, feitas em dois hospitais públicos do Rio, encontraram uma incidência média de 8,4% de eventos adversos, semelhante aos índices internacionais.

No Brasil, no entanto, é alto o índice de problemas evitáveis: de 66,7% a 73%. Em outros países, a incidência variou de 27% (França) a 51% (Austrália).



Em números absolutos, isso significa que, em 2008, dos 11,1 milhões de internados no SUS, 563 mil foram vítimas de erros evitáveis.

Para Walter Mendes, pesquisador da Fiocruz e consultor do comitê do programa de segurança do paciente, embora haja limitações metodológicas ao extrapolar os resultados para o resto do país, os estudos indicam a magnitude do problema.

"É um quadro barra pesada. Nos países desenvolvidos, existem políticas de segurança bem consolidadas. Aqui estamos acordando com um pouco de atraso", diz ele.

Segundo Mendes, a política de segurança do paciente não pode ser vista em separado do "imenso caos" que vive a maioria dos hospitais.

"A questão é adotar mecanismos impeçam que o erro chegue ao doente", afirma.

A morte da menina Stephanie Teixeira, 12, que no ano passado recebeu vaselina em vez de soro nas veias, é um exemplo de erro evitável. Os frascos eram idênticos, e os nomes dos produtos estavam em etiqueta de mesma cor.

Para Angela Maria da Paz, gerente da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), esses casos acontecem porque as instituições não seguem protocolos. "Existem ferramentas capazes de prevenir esse tipo de erro."

No Brasil, diz ela, os eventos adversos são subnotificados e, em geral, só se tornam visíveis quando viram caso de polícia. "Existe a cultura do castigo, as pessoas escondem, têm medo. O erro deve ser aproveitado como aprendizado, não para punição."

Para o professor Jesús María Aranaz Andrés, chefe do serviço de medicina preventiva do hospital Sant Joan d'Alacant (Espanha), a reparação do erro pode ser resolvida de várias formas, como pela compreensão e correção ou por indenização.

"Só não pode haver culpabilização porque isso leva à ocultação. Se escondermos a cabeça na areia feito avestruz, não vamos aprender."

O pesquisador Paulo Santos Sousa, professor da Universidade Nova de Lisboa (Portugal), diz que as mudanças devem ser de cultura.

"Bactéria não tem asas. Ela passa de paciente para paciente porque alguém a carregou nas mãos. Sempre se soube que lavar as mãos é importante, mas continua sendo um desafio."

Segundo Angela Paz, da Anvisa, a agência construirá uma ferramenta eletrônica para monitorar os eventos adversos e agir na prevenção.

Um dos pontos da política, segundo ela, é uma negociação com o Ministério da Educação para que as faculdades de medicina coloquem em seus currículos o tema de segurança do paciente.

Outra ideia é disseminar essas informações ao paciente para que ele se torne atuante no processo, e não um mero espectador.

domingo, 28 de julho de 2013

Transição do cuidado no I Congresso Sulbrasileiro de Atenção Domiciliar

Ontem pude trabalhar parte da equação em evento no no Centro de Eventos Plaza São Rafael. Deixo aqui alguns dos slides...




Resultados do Projeto Red: 
Menos readmissões hospitalares e visitas às emergências!




Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...