terça-feira, 30 de agosto de 2011

Duas coisas raramente compatíveis?

Na Veja desta semana, artigo Paixão oficial, de J.R. Guzzo, sobre "o fascínio das pessoas ligadas ao governo, e dos políticos em geral, pelo jatinho".
É uma atração perigosa, quando se considera quem são os passageiros e quem são os donos dos jatinhos: os primeiros são homens políticos, que têm a obrigação de cuidar dos interesses da população, e os segundos são donos de empresas com negócios junto ao governo, que têm como único propósito cuidar dos próprios interesses. As duas coisas são raramente compatíveis. Pode o ocupante de um cargo oficial aceitar presentes de uma empreiteira de obras públicas?
Se substituírmos os passageiros por médicos e a indústria farmacêutica pelos donos dos jatinhos, será que se mantém a nossa alta taxa de "absurdo" ou "não concordo"?

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Big Pharma

Esta discussão sobre a indústria de medicamentos e tecnologias é bastante movediça. Pode ser levada a um extremo que coloca em risco a saúde das pessoas, tanto ou mais como quando se critica a indústria por passar do ponto na promoção e marketing. Abaixo um vídeo que aborda isto de maneira bem humorada:


Pessoalmente não sou contra a indústria farmacêutica, já escrevi sobre isto em inúmeras postagens. Claro que historicamente a Big Pharma tem cometido alguns excessos, mas as práticas que mais estudo dizem respeito à atuação dela absolutamente dentro dos seus limites como empresa cuja principal missão é vender e vender os seus produtos. É a relação das entidades médicas e dos médicos com a indústria meu ponto principal e, infelizmente, penso que na maioria das vezes a indústria faz o seu papel apenas. Quem se deixa usar somos nós. E acredito muito também na força da influência inconsciente.

Se a Big Pharma não mudasse em nada na próxima década, mas nós médicos mudássemos, separássemos pelo menos nossa educação continuada dos interesses deles, acho que chegaríamos perto do ideal para um mundo que não seja utópico. Havendo interesse adicional pelo assunto, criei o grupo Industry-free medical education no Facebook.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Sociedade de cardiologia aprova até hambúrguer

Lançado no País há pelo menos 20 anos, o selo de garantia concedido por associações médicas pode ser encontrado até em hambúrgueres.

Uma marca desse alimento industrializado - geralmente riscado do cardápio de quem procura hábitos mais saudáveis - é recomendada pela Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC). No site da entidade, é possível encontrar as razões para essa curiosa distinção: o produto teria baixo teor calórico e reduzido teor de gordura e sódio.

A explicação é a mesma para a extensa lista de biscoitos e pães que a sociedade recomenda.

O selo da SBC - uma das precursoras da estratégia - pode ser encontrado em dois tipos de margarinas, cinco tipos de bebidas à base de soja e quatro variedades de sucos, além de óleos, cereais, laticínios e equipamentos médicos, como medidores de pressão (Fonte: O Estado de S.Paulo).

A Sociedade Brasileira de Pediatria dá sua chancela a um sapato, um repelente e um sabonete bactericida.

Eduardo da Silva Vaz, presidente da sociedade de pediatria, afirma que os produtos são analisados por uma comissão independente antes de serem aprovados.

A entidade é remunerada pela concessão do selo (Fonte: Folha de São Paulo)

SBC vai pedir revisão de proibição de selo em alimento.

O Conselho Federal de Medicina proibiu a inclusão de selos ou marcas de sociedades médicas em rótulos de produtos, como alimentos, sabonetes e equipamentos.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

SAFETY 2011 - O que é mais seguro: Salto de paraquedas ou cirurgia?








Em atividade intitulada O que é mais seguro: Saltar de paraquedas ou ser operado da vesícula?, “comparou-se” a mortalidade da cirurgia (~ 0,3%) com estatísticas da Brigada de Infantaria Paraquedista do Brasil (milhares de saltos, acidentes em 0,035%, ausência de mortes), estimulando mais uma vez reflexões sobre gerenciamento de risco em saúde e sobre como podemos aprender com outros setores. [Leia mais]

domingo, 14 de agosto de 2011

Impacto do suporte financeiro da indústria farmacêutica nos eventos científicos e projetos de educação continuada

Eu já havia apresentado estes dados em Campanha Alerta, mas volto a fazê-lo agora ilustrando melhor alguns aspectos.

O título da postagem é o título de uma tese de mestrado sobre o tema e que pode ser conhecida na íntegra aqui.

O autor falando um pouco de sua motivação para o trabalho: "Um bom exemplo aconteceu no final dos anos 90, com uma revista que eu editava para uma grande empresa farmacêutica com atuação na Endocrinologia. Numa das edições, o gerente de produto responsável pelo projeto exigiu que mudássemos parte da afirmação de um notável especialista que concedeu uma entrevista sobre o lançamento iminente de uma nova droga utilizada no tratamento da obesidade. No trecho da discórdia, o entrevistado referiu-se à necessidade de estudos complementares para conhecer melhor a eficácia e, sobretudo, os efeitos colaterais do novo medicamento. Preocupada, a empresa sugeriu que minimizássemos as declarações sob o argumento de que todos os estudos haviam sido feitos e que o medicamento era seguro. A opinião do médico acabou prevalecendo, o que era raro, porém, a revista deixou de ser publicada poucos meses depois".

Introdução: "No Brasil, o Conselho Federal de Medicina (CFM) recentemente se posicionou a respeito na Resolução 1.772, em que oficializa a recertificação a cada cinco anos por meio de avaliação ou da comprovação do acúmulo de créditos. Pesquisa recente do Conselho Federal de Medicina realizada com 14.405 médicos em todo o Brasil revelou que a freqüência a estes eventos aumentou 13% nos últimos 10 anos. Ora, se para manter-se competente ao longo do tempo é necessário atualizar continuamente os conhecimentos e as práticas, o médico se revela consumidor ideal de “pacotes de educação continuada” que lhe sejam entregues em formato prático e eficiente, como os congressos".

Questionamentos do autor: "Em que se pesem discussões sobre o formato, duração, conteúdo, localização e tamanho dos eventos científicos, sempre haverá o questionamento sobre os custos de sua organização: é possível economizar?"; "Seria possível organizar congressos de especialidades e outras atividades para educação médica continuada sem o auxílio financeiro da indústria?"

Resultados: "Um dado importante é com relação à interferência das empresas na elaboração dos projetos: os relatos não deixam dúvidas de que elas não tiveram ingerência na definição do conteúdo científico dos materiais que foram desenvolvidos. A parceria ficou restrita aos aspectos comerciais. Esse é um achado importante porque refuta a afirmação de que as empresas influenciam a pauta científica das instituições de pesquisa".

"Há que se considerar que os conflitos de interesse descritos na literatura ocorrem, em sua maior parte, durante eventos de grandes proporções como estes. Os entrevistados não relataram qualquer conflito entre as entidades e seus parceiros comerciais, mas admitem a possibilidade de existirem na relação direta entre o médico e a empresa".

"A ética foi o instrumento mais evocado como parâmetro para o bom comportamento, com a recomendação de que os interesses de ambas as partes devem ser revelados".

"Neste quesito [receitas a partir de inscrições] a única exceção foi no Congresso Brasileiro de Clínica Médica, onde as inscrições totalizam a maior fatia das receitas, mas o percentual não foi informado. Outro detalhe importante é a relação entre as receitas e as despesas destes eventos: a SBOT é a única sociedade que auferiu lucro com seu congresso brasileiro, a julgar pelas cifras informadas. Nos congressos da Febrasgo e SBCM houve equidade entre receitas e despesas".

Discussão: "Os maiores problemas no relacionamento entre a classe médica e os laboratórios farmacêuticos sempre estiveram relacionados à falta de transparência, que afeta a credibilidade e minimiza a importância das ações da indústria, e à dúvida sobre se o apoio financeiro das empresas influencia ou não a agenda das sociedades médicas".

"Apesar de as sociedades médicas pesquisadas negarem a existência de conflitos de interesse entre si e as empresas que patrocinam projetos de educação continuada e eventos científicos, admitem a possibilidade de haver deslizes éticos na relação individual do médico com a empresa. A intensificação dos debates poderá levar as entidades a adotarem uma postura mais coerente, deixando de se eximir integralmente da responsabilidade por eventuais desvios de conduta de seus associados, como ocorre atualmente".

Leia na íntegra. Ao final, entrevistas com os presidentes das sociedades médicas envolvidas no estudo.
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...